INVERTIDO

O invertido também é verdade, o teu traçado de roteiro aconteceu dentro do meu livro. A experiência da narrativa pode ser maior… Pode? Acho que pode. Uma rotina de deslocamento diferente de atravessar a rua, olhar e ou falar com pessoas de carne e osso. Beber chá ou café com amigos, olhar o verde, as cores, conhecer, cheirar, tocar, tudo diferente… Esta coisa do olhar, do mergulho tem… Tem coisas que não podemos explicar com palavras, é verdade, sentimos. Daquele jeito esquisito que sei que estás atrapalhado com uma coisa sem controle, sobrecarregado. E depois sei que estás frente à televisão entretido com a estória da história. Sei que não gostas tanto assim de frutas e legumes. E não sei nada. Invento tudo. Apenas sei que estás feliz, ou quando não estás. Mesmo longe, eu sei.  Palavras escritas. O escrito pode ter um viés transgressor fantasioso. Leitura tem um contra ataque. Sofro todos. E agora fico a pensar que nunca estaremos prontos para ser felizes, ou completos. Estamos presos na construção: operários da catedral… Não adianta projetar, desenhar, idear se a construção não acontece, em se tratando de catedrais… Não sei. Também sei que qualquer sonho vale, ou não sei? A expressão não é território real? Quero aquela tela, escuto a música, visto a roupa, mergulho no livro. Entro no fantástico mundo das maravilhas. E em cada fazer está pendurada a inquietude, insegurança, angústia.  O que me revela veladamente porque não encontro o lugar para trabalhar, escrever, e me acomodar. Nem silêncio, nem a luz certa. Reclamo da sorte, e agradeço a sorte. Incoerência completa. É preciso muita sintonia pra que a verdade funcione nas palavras, na escrita, nas entrelinhas, no silêncio.  Sabe como me descubro? Vaidosa, Susceptível. E me faço de corajosa, e me ponho nua na calçada, para surpresa de todos. E se comentam, acho engraçado, ninguém vê a carapaça, o meu escamoteado jeito de ser, como se a exposição, fosse ela mesma a minha caverna. A minha escura e real morada. A proteção pode ser exposição.  Com dureza Sábato escreve:

“Lamentavelmente, nestes tempos em que a palavra perdeu seu valor, também a arte se prostituiu, e a escritura reduziu-se a um ato de valor similar ao de imprimir papel-moeda. Como já disse em O escritor e seus Fantasmas ‘Ficam poucos que contam: aqueles que sentem a necessidade obscura mas obsessiva de testemunhar seu drama, sua desventura, sua solidão. São as testemunhas, os mártires de uma época’ Estão destinados a uma missão superior, não pertencem a igrejinha literária nem cenáculo e, por isso, não sua finalidade tranquilizar indivíduos confinados em sacristias, e sim romper todas as conveniências, devolvendo-nos o sentido de nossa trágica condição humana. Nesta vocação, muitos foram levados à loucura, às drogas ou a tantas outras formas de suicídio. […] Van Gohg morreu suicidado por uma sociedade que não podia continuar suportando suas terríveis revelações. Como duvidar que Artaud estava também falando de si mesmo; em uma carta a seu médico, depois de terríveis eletrochoques, declarou sentir-se ‘tratado como um alienado e maltratado em razão de um gesto, de uma atitude, de uma maneira de falar e de pensar que foram na vida as de um homem de teatro, do poeta e do escritor que eu era. ‘Acabou morrendo como um cão; o jardineiro encontrou-o uma manhã, sentado em sua cama com um sapato na mão. Nunca saberemos aonde ele se dirigia nesse dia da sua última solidão.”(p.78-79)  Antes do Fim  Memórias, Ernesto Sábato

 

Então, na minha completa nudez eu me pergunto. E eu? Não sei, mas sou obsessiva. Isso deve contar. Caminho, caminho na angústia, e vou registrando. Teclando, dizendo. Deve ser assim que ando no encontro com Karl Ove Knausgård. Estranha sensação… Mistura encantamento, não parei de ler, e decepção porque não tem espetacular, nem porão, nem sótão, o livro é de um hoje inquietante, casa plana. Noruega e Suécia se contrapõem. Pano de fundo. Apoio e espelho da relação marido e mulher. É minuciosa a diferença de países. E de longe nos parecem tão iguais! Não são. O que me atrai? A facilidade com que conseguiu colorir minúcias e transformou tudo em biografia.  O tanto que ele, obsessivamente, se coloca na palavra. E a palavra descreve banalidades ao mesmo tempo em que rasga a alma dele. Vai deixando o rastro das leituras, da arte, da dor, do difícil. Obsessivo sim, e tão comum! E eu me agito. E gosto deste perdido achado. Deprimido. Como me descartar? Há que ser/ter a certeza que mesmo sem ser, somos. Escrever é transgressão.

Incompleta

A voz da  mãe e o olhar do pai.

Não passei do portão…

Demoro tanto para ficar gente grande!

Ainda estou  a crescer …

 

”   […] o passado era apenas um dos vários futuros possíveis.

Não era o passado que deveria ser evitado e ignorado, mas apenas a estagnação. O mesmo valia em relação ao presente. E quando o movimento que a arte cultivava tornava-se estagnado chegava o momento de evitá -la e ignorá -la. Não porque fosse moderna e estivesse ligada à época em que vivemos, mas porque não se movimentava e não passava de uma coisa morta.” (p.387) Karl Ove

 

 

 

Hoje não posso

Leitura solitária. Difícil. Divertimento, passatempo, vício, depois a longa e frutífera conversa… Leio e pondero. Julgo, aceito, nego. O livro briga … E não existe solidão…

Pequenas mágoas doem bastante. Apertam. Empurramos pra esquecer, mas  se amontoam na gaveta, desarrumadas … Esquisito sentimento.

Enquanto você se mostra e faz o mimo,  recuo desconfiada. Consciência ajuda a perdoar.  Amanhã estendo os braços, abro a porta. Hoje não posso. Continuar lendo

Decepção

Decepção, outro entendimento, outra leitura. Está perdendo os pedaços o meu autor. Bebendo demais. Óbvio demais. Talvez esta seja a questão. A  exposição corajosa, mas… Interrompo o processo para pensar.Talvez aborreça porque todas as histórias de amor se parecem. E tão iguais perdem identidade.

Se eu ao menos pudesse vencer esta distância, escrevi. Eu daria tudo no mundo. Mas não havia jeito. Eu te amo, e talvez você ache que me ama, mas não é verdade. Eu acho que você gosta de mim, tenho uma certa certeza razoável, mas eu não sou o bastante para você, e no fundo você sabe que estou certo. Talvez você precise de alguém ao seu lado agora, e então eu apareci e você achou que talvez pudesse acontecer qualquer coisa. Mas eu não quero ser a pessoa que talvez seja alguém, para mim não basta, tem que ser tudo ou nada, você tem que arder como eu ardo.”(p.219) Um Outro AmorKarl Ove Knausgård

Tão as mesmas! Tudo precisa ser reinventado. As verdadeiras narrativas são proibidas. São proibidas. Segredos. E contar segredos não é o foco.   Ou descrever o outro…

Lembro. Estivemos juntos na Feira do Livro, abrimos presentes no Natal. E durante o ano inteiro flores. Cesta com vinhos, copos,  e bobagens. Caixas para guardar mistérios. Pijamas (adoro roupas de dormir preciosas, especiais). Livros, cartas, cartões e telegramas. Pois é meu estrangeiro… Aqui estou eu,  sem vontade de escrever, nem pensar. Estou querendo ver os filmes que não vimos, ler livros  fatiados por vozes. Praças com balanços e gangorras. Jardim Zoológico. Dói ser gente grande, e por isso persigo a criança que guardo dentro de mim. E se perdemos o amor, o desastroso é querer de volta. Via acidentada…

 

 

 

 

 

 

Vou morder a maçã

carte-norvege-G.jpg NorvegeDepois de uma caminhada no calor. Sim. Está quente hoje. Mormaço, clima de verão, e ainda é agosto. Mormaço. Preguiça. Um pouco de nostalgia, desacerto. Desencontro neste encontro amoroso. Sinto ciúmes. Revolta, raiva, vontade de bater… Qualquer coisa roída de malévola.  Como explicar? As tais escolhas definitivas, e nem tão definitivas. Desviadas, enviadas como raios, mas também a essência.  Karl Ove Knausgård escreve: “como é abissal a diferença entre nossas vidas.” Ou “compreender o mundo requer que se mantenha certa distância dele.” Uma distância. É nela que flutuo, e te encontro. Estás incompreensivelmente nesta distância. E te sinto tão perto! Tantas vezes estive neste abismo das diferenças. Como explicar? Talvez muito pouco acomodada no meu próprio corpo. Sempre procurando um lado etéreo, eterno, religioso ou pagão, mas essencial. Não existe essencial. Existe o agora, o hoje como tantas vezes repetes. Não encontrei o meu corpo, o desejo, o gosto, a violência, a paixão. Sempre comedidamente comedida. Tímida para espanto da lógica, do sorriso. Hesitante. O tempo vai engolindo o tempo, e não estás aqui. Não estou aí. Nunca estivemos no mesmo lugar.  Sim, lembro à calçada. Lembro na tua lembrança. Fantasia do capricho. Estás fervendo no meu sangue. Como se fosse o vinho que sempre me enrubesce. E a vida doce… Encanto de imaginar. Não está “tudo igual” porque existem territórios interiores intocáveis. Então te aproximas e te apossas. Releio tua carta: “Para mim fizeste uma parceria com tuas angustias e crises existenciais. Estás tão acostumada a viver desta maneira, que já não tem como mudar ou querer mudar. Tua zona! Tua história! Não briga com os fatos.” Fico procurando aqui e ali teu rastro. E a raiva impotente do silêncio, desta minha  história me toma por inteiro, se apossa …me entristece.  Desenhei a estrada, e me fui por este caminho torto. Desviei da história certa, ou eram todas incertas? Estou atrapalhada. Tu me alegras. Tu me confundes. Tu me inquietas. E não é hora para atrapalhações. Preciso arregaçar as mangas, e trabalhar. Releio:« Vou dizer como te sinto. Estás vivendo a tua vida totalmente do teu jeito. Curtindo da tua maneira!  Esta é a tua forma, engrandece isso, sem culpas, nem críticas. Não queiras a esta altura, ter uma grande solução para tuas dúvidas. (Esquece). Estamos nesse mundo louco e difícil de achar saídas. Estou contigo neste desafio.»Pois é meu querido amado… (Gosto de te pensar querido e amado) Não estás comigo, no entanto, estou contigo. Como se fosse este o único caminho, te encontrar… Estás rindo. E não há mais tempo para fazer diferente. Cultivei a angustia como rosa exótica, tens razão. Sempre tens razão o que de certa forma me exaspera. Quero eu ter razão quero eu justificar quero eu estar na zona do prazer quero eu ser o foco tua rota. E tudo isso é como visitar a Lapônia, estar com Papai Noel. Pés fincados na neve, acariciar as renas, e… Estou ferida de morte. E me abandonas.  Pontuas tranquilamente: “Vive teus momentos. Não é uma extravagância. É uma necessidade que devemos usufruir. Este é o caminho, o outro é o descaminho! Se tirar os momentos bons, o que sobra? Nada…» Enquanto te escrevo sinto enorme prazer. E me pergunto se este é um dos meus bons momentos. Mordo a maçã que não tem gosto de maçã. Então, vou comer uma laranja. Olhar para dentro. E não te encontrar. Onde estás?Elizabeth M.B. Mattos agosto de 2016