Vou morder a maçã

carte-norvege-G.jpg NorvegeDepois de uma caminhada no calor. Sim. Está quente hoje. Mormaço, clima de verão, e ainda é agosto. Mormaço. Preguiça. Um pouco de nostalgia, desacerto. Desencontro neste encontro amoroso. Sinto ciúmes. Revolta, raiva, vontade de bater… Qualquer coisa roída de malévola.  Como explicar? As tais escolhas definitivas, e nem tão definitivas. Desviadas, enviadas como raios, mas também a essência.  Karl Ove Knausgård escreve: “como é abissal a diferença entre nossas vidas.” Ou “compreender o mundo requer que se mantenha certa distância dele.” Uma distância. É nela que flutuo, e te encontro. Estás incompreensivelmente nesta distância. E te sinto tão perto! Tantas vezes estive neste abismo das diferenças. Como explicar? Talvez muito pouco acomodada no meu próprio corpo. Sempre procurando um lado etéreo, eterno, religioso ou pagão, mas essencial. Não existe essencial. Existe o agora, o hoje como tantas vezes repetes. Não encontrei o meu corpo, o desejo, o gosto, a violência, a paixão. Sempre comedidamente comedida. Tímida para espanto da lógica, do sorriso. Hesitante. O tempo vai engolindo o tempo, e não estás aqui. Não estou aí. Nunca estivemos no mesmo lugar.  Sim, lembro à calçada. Lembro na tua lembrança. Fantasia do capricho. Estás fervendo no meu sangue. Como se fosse o vinho que sempre me enrubesce. E a vida doce… Encanto de imaginar. Não está “tudo igual” porque existem territórios interiores intocáveis. Então te aproximas e te apossas. Releio tua carta: “Para mim fizeste uma parceria com tuas angustias e crises existenciais. Estás tão acostumada a viver desta maneira, que já não tem como mudar ou querer mudar. Tua zona! Tua história! Não briga com os fatos.” Fico procurando aqui e ali teu rastro. E a raiva impotente do silêncio, desta minha  história me toma por inteiro, se apossa …me entristece.  Desenhei a estrada, e me fui por este caminho torto. Desviei da história certa, ou eram todas incertas? Estou atrapalhada. Tu me alegras. Tu me confundes. Tu me inquietas. E não é hora para atrapalhações. Preciso arregaçar as mangas, e trabalhar. Releio:« Vou dizer como te sinto. Estás vivendo a tua vida totalmente do teu jeito. Curtindo da tua maneira!  Esta é a tua forma, engrandece isso, sem culpas, nem críticas. Não queiras a esta altura, ter uma grande solução para tuas dúvidas. (Esquece). Estamos nesse mundo louco e difícil de achar saídas. Estou contigo neste desafio.»Pois é meu querido amado… (Gosto de te pensar querido e amado) Não estás comigo, no entanto, estou contigo. Como se fosse este o único caminho, te encontrar… Estás rindo. E não há mais tempo para fazer diferente. Cultivei a angustia como rosa exótica, tens razão. Sempre tens razão o que de certa forma me exaspera. Quero eu ter razão quero eu justificar quero eu estar na zona do prazer quero eu ser o foco tua rota. E tudo isso é como visitar a Lapônia, estar com Papai Noel. Pés fincados na neve, acariciar as renas, e… Estou ferida de morte. E me abandonas.  Pontuas tranquilamente: “Vive teus momentos. Não é uma extravagância. É uma necessidade que devemos usufruir. Este é o caminho, o outro é o descaminho! Se tirar os momentos bons, o que sobra? Nada…» Enquanto te escrevo sinto enorme prazer. E me pergunto se este é um dos meus bons momentos. Mordo a maçã que não tem gosto de maçã. Então, vou comer uma laranja. Olhar para dentro. E não te encontrar. Onde estás?

2 comentários sobre “Vou morder a maçã

  1. belas narrativas, descriçoes simples e complexas… Lembranças, Noruega, Laponia , sensibilidades vivas.
    Tous très important!
    Merci ecrivain

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