Implacável voracidade do tempo

Que beleza. Quanto ainda tenho a aprender. Não queimei nada, mas ainda assim as páginas em branco se sucedem quer eu queira quer não. É a implacável voragem do tempo.” E.A.Costa – 2017

Releio as cartas que te escrevi, as que ficaram guardadas tanto tempo! E a estranheza volta. Dou-me conta o quanto endureci depois do L. A., – o quanto fiz de conta que não sentia, e me estraçalhava. Eu tinha apenas, ou já dezenove anos, mas fiquei com cento e noventa. Não sei explicar, mas percebo através das cartas que te escrevi o quanto o talho foi profundo. Meus pulmões se encheram de mar de rio, de desespero neste mergulho, e dou-me conta que NUNCA mais respirei com liberdade, não me curei e  …  Não sei se foi por ele, deveria ter recorrido a terapia, mas uma Beth mais leve, mais suave teria emergido. Não tenho medo nem do amor, nem da vida, continuo a mesma mulher de sempre, como pude escrever isso? Que enganação! Amar sem bobices e medo tinha sido o teu conselho! Se tivesse ido mais fundo não teria sobrado nem mesmo o sonho. E eu repito as notícias são sempre as mesmas porque o homem é sempre o mesmo, sim isso segue sendo mais ou menos verdade, não somos exatamente os mesmos, mas sofremos repetidas vezes o mesmo mal … Tão igual, tão monótono, tão duro e doce como sempre será. O castigo de Sísifo é o nosso, o mesmo, carregar a pedra. Será que ele ia mesmo me deixar vestida de noiva esperando por ele no altar? Eu teria entrado na igreja? Será que foi seu pai ao desmanchar nosso noivado, desmanchar o compromisso alguns meses antes que me salvou? Será que eu fui mesmo salva? Até hoje não sei o que aconteceu. As respostas poderiam mudar o sentido … O sentido que nunca encontrei nestes trajetos amorosos. A carta é datada de 20 de setembro de 1967, outra de 19 de setembro de 1967 … quantos anos soterrada! Sobrevivi. O fato pode ser corriqueiro, os amores são mesmo despedaçados, interrompidos, alagados. Alguém é abandonado, sofre, alguém segue em frente. Uma história como muitas outras. Mas estas cartas achadas que tu guardaste mais os anos todos e os meus esfarrapados amores explicam uma dor espichada, esquisita, não é mesmo? Sempre esperando, sempre sonhando, mas apavorada de medo …  E levantando a bandeira de autonomia e liberdade, distância. Minhas cartas estão sem nexo perturbadas perigosas e contraditórias, buscava uma explicação.  … foi inesperado, revoltante, assim eu te escrevia para contar o rompimento. Rio de Janeiro, 15 de setembro de 1967 … eu desesperava sem saber, sabendo, é claro, eu choraria a vida inteira …  Faz uma semana que estou aqui, faz uma semana que espero cartas tuas.  E segue assim:  Mágoas e dores adormecidas e quase esquecidas … e termino dizendo que passou aquela imensa piedade que sentia de mim mesma, …  Nunca passaria, nunca esqueci aquele jeito errado de amar o amor que não era, afinal, amado… como estou sendo tola! Que revolta ódio eu senti, podes imaginar ou calcular foi inesperado e revoltante … estas releio, e te respondo hoje, retomo o discurso, sigo/escuto o eco … penso que deverias colocar todas no envelope, selar e encaminhar, poderia chorar mais, poderia romancear menos, poderia não sei o que fazer …  Estou lendo fotografadas. No entanto elas existem estas cartas.

cartas do passado

“Pensando bem: o texto revelado esfarinha-se como se poeira tivesse sempre sido, mas preserva o conteúdo da matéria. Muito o que pensar sobre isso a partir de Brennand.” E.A.Costa – 2017

E eu sigo escrevendo a partir/por/ pensando Bre nnand …

A CERÂMICA foto linda UMA só peça

Foto de Luiza Mattos Domingues – Recife, maio de 2017.

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