às vezes as histórias se cruzam

 

Às vezes, às vezes é o advérbio certo para iniciar o que preciso dizer. O vinho é muito bom, português, Porca de Murça, Douro, Denominação de Origem Controlada, 2014. Tinto, seco. Tomei dois cálices, bem, estou no terceiro. Deve ser bom … Como chocolate e penso. Ainda consigo pensar. Tu adoravas estas questiúnculas sobre vinhos e degustação. Então resolvi sentir saudade. Há livros que são escritos para uma única pessoa. Tomar um bom vinho é o que te define. É verdade. Eu queria escrever para que tu pudesse me encontrar, … encontrar a pessoa certa, no momento certo. E beijar. Gosto de beijar. O nosso beijo, o beijo espontâneo. Ele disse: ” juntos, e vai ser bom” . E agora que não estás mais aqui? O que faço do meu/teu/ do nosso beijo? Do que ficou …

As cortinas estavam fechadas, o pequeno abajour aceso e as flores na mesa … não consigo fazer/escrever, preciso contar a história para alguém, despejar este sentimento todo, e voltar ao normal. Mas alguém não é um pronome indefinido, preciso olhar nos olhos, e também preciso escutar a minha voz. Descrever, dizer exatamente o que aconteceu. Preciso voltar. Todas as vezes que quero pensar em ti eu conto desde o começo, a conversa, o primeiro olhar. Eu te vi chegando/ entrando no restaurante. A voz e a conversa, a minha pressa, a bolsa vermelha pesada, a hora de sair, o depois … a tensão. Estávamos os dois nervosos.  E o vinho que bebemos, a salada, a comida que não consegui engolir. Nós. ” juntos, e vai ser bom”

 

E lembro quando saíste apressado do quarto de Iberê Camargo, sentaste perto de mim, não, não foi exatamente perto de mim, mas numa cadeira em frente, a sala não era grande, também não era pequena, mas isso não importa, o que eu gostei foi do teu corpo magro, e dos teus olhos azuis, e gostei da forma com que movimentaste os braços, e das perguntas, ou não foram perguntas? Logo eu estava explicando que não morava em Porto Alegre, mas em Torres. Então tu afirmaste que irias a Torres nos próximos dias, estavas procurando uma casa para comprar, acho que foi isso (deves ter resolvido na hora que te mudarias de Buenos Aires para morar em Torres), depois desta conversa nunca mais pude deixar de pensar azul. E foi assim que eu me encontrei com o amado do amor. Num restaurante depois de ter conversado tanto ao telefone, e depois de ter falado contigo na casa do nosso amigo pintor. As histórias se cruzam. Foi tudo um beijo, e amor. Elizabeth Menna Barreto Mattos, Torres, junho de 2017.

 

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