a tal esperança …

Estou mais velha, mais confusa, mais triste. Estonteada. Muito encontro no desencontro. Tristeza na mágoa … e aquele vazio que nos leva/ arrasta para o silêncio que atordoa com grito e reclamação e raiva. Estou divagando. É o que gosto de fazer quando escrevo. Pensar e deixar correr/ escorrer. Estou diferente. Não é esquisito isso? Diferente para tudo …  Acho que estou muito mais velha, idosa, cansada desta batalha deste acordar e seguir. Uma chatice, um aborrecimento olhar para os sulcos, as rugas, as manchas e não ter mais cabelos. O branco não me aborrece, mas serem ralos e finos sim, isso me aborrece. Envelhecer, perder a memória, fazer as coisas com passos miúdos me aborrece.  Não estou levando bem esta coisa de tempo passando, de experiência, deste bla blabla blá. Nem de transcendência. Digamos que estou bastante/muito/ completamente revoltada por não poder ser a Beth a Elizabeth de quatro meses atrás … eu estava/era menina alegre, criança no verão e nesta primavera uma surpresa …, abruptamente, entro neste estágio sombrio e pesado de envelhecer.  A morte tem estes contornos. E a vida …um dia depois do outro também cura. A vida tem poder curativo, e rejuvenescedor.  Eu também sei. Então … tudo é uma questão de tempo, de lágrima e sorriso misturado. Da outra mão, do outro olhar, do outro abraço … eu chego.  Vou acreditar nisso, e me reabastecer naquela minha alegria nata, – risos. Com setenta anos já estamos na linha de risco. Distraídos como convém para a idade, o que significa preparados.  Que ideia! Nunca estaremos preparados nem prontos para nada, e contamos histórias para nós mesmos, e lá se constrói o engodo.

Estou no limbo, mas também perto da libertação, exorcizando, usando a consciência, um estado estranho de esquisito estranhamento ...

Escuto música, sinto um pouco de frio, liguei estufa, aquecimento e coloquei meias de lã. O dia está cinzento. E os vidros nublados, não foram limpos …. E a lagoa e as árvores e o céu parecem mais cinzentos ainda. Para escrever coloquei um pé de luz/ uma lâmpada/ luz para iluminar a mesa e me instalei decidida a ir até o fim. Hoje vou festejar o domingo. Tirei fotos das flores das buganvílias que estão maltratadas pelo vento, descabeladas como eu. E descobri três florezinhas no jasmineiro. Apesar da ventania que se superou como ventania estas flores resistiram … resistir é uma boa palavra. Escrever é outra palavra ótima.  Confidenciar também é muito bom. Ler ler ler é mais difícil … até entrar no texto. A leitura é uma viagem, e nem sempre estamos dispostos a nos mover, nem encontrar caminho, jardim, soluções. Leitura transporta, resolve, abre, aperta, estrangula, sufoca, e depois faz a pessoa respirar. Saímos outros/diferentes. Mas nem sempre estamos dispostos a mudar a coisa, a dor, o enjoo, o espanto e a estupefação. Leitura conserta … não é concerto que transporta, enleva. É arrumação mesmo. Sei lá porque pensei assim.

Devo ter um brilho no olhar. Qualquer coisa que grita: estou viva, sou feliz, tenho amor voltas internas, caminhos que nem eu sei, deve ser a tal esperança. Elizabeth M.B. Mattos – Torres, agosto de 2017

 

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