conversa entre conversa

 

… aborrecido terrível. Esta coisa de ter 70 anos me parece de mau gosto, e cruel. Bom! Espero chegar aos 80 anos!  Aos 90 ou 99 … Que absurdo! Ando neurastênica e impaciente.   … lendo, lendo … o que parece perder tempo porque esqueço fácil, fácil. Sigo titubeante.  Gagueja a memória. Escrever, escrever, escrever o possível, inventar o impossível.

A memória sofre pressões. “Antes de mim já alguns homens haviam percorrido a terra: Pitágoras, Platão, uma dúzia de sábios e bom número de aventureiros. Pela primeira vez o viajante era, ao mesmo tempo, o senhor com plena liberdade de ver, reformar e criar. Era a minha oportunidade, […] foi então que me apercebi da vantagem de ser um homem novo e um homem só, muito pouco casado, sem filhos, praticamente sem ancestrais, Ulisses sem outra Ítaca além do interior. (p.129) Memórias de Adriano, – Marguerite Yourcenar, RJ, Nova Fronteira, 1980.

Antes de mim as relações eram difíceis, seguirão sendo complicadas. A distância física aumenta a facilidade de ser apenas sombra/ ideia de uma pessoa, um simulacro, …  Não tenho nem toco no outro … viajo, sonho, falo sem voz. A grande solidão se estende, e sigo neste escuro proposital. O medo de despedaçar, a evidente facilidade de ser apenas aquele específico momento/ tempo/ hora /ou tarde impede de avançar, ou ariscar, de ser feliz ou infeliz. A rede silenciosa e poderosa nos protege. O telefone parece obsoleto, a voz não existe. E nem a distância. Estamos no mesmo barco, no mesmo mar, no mesmo embalo, mas invisíveis, e amorosamente juntos no engano.

Pela primeira vez tenho a oportunidade de falar/dizer o que penso sem aquele medo constrangedor do julgamento. Posso avançar e recuar na mesma velocidade. Posso estar no lugar certo, e desaparecer … ninguém vai notar que fiquei encabulada, ou que senti medo, vergonha. Não tenho certeza de nada, chego e volto … posso me esconder, posso rir de mim mesma … estou na simbólica caverna completamente exposta em vitrine.

Sem um lugar certo, apenas o interior. Sozinha dentro de mim mesma. As pessoas entram e saem, aparecem e desaparecem. O telefone pode aproximar, como transformar a solidão numa cômoda ideia de pertencimento, troca afetiva e silenciosa de um nada paramentado, imaginado e colorido. Completa alegria … estranhamento!  O outro tem vida própria, familiar, trabalho, e realidade diferente! Cruzo a linha do agora e do real, estou na plataforma ilusionista de quem tecla do outro lado, … se fosse desenhar, pintar, captar a forma, o corpo, o inteiro, … o que exatamente escolheria? O rosto, o ambiente, o sentimento … a ideia … ou o nada. Sentes assim … projetas … eu sinto. Uma brincadeira que acontece no quintal de pitangueiras, de amoreiras, de ameixeiras … vejo a cerca, o gramado … estico a cabeça, mas não há ninguém ali … Elizabeth M.B. Mattos – Setembro de 2017 – Torrres

MARAVILHOSA ESTA

ao distante

Existe a data a pergunta e dúvida.  A viagem de volta ao conhecido distante … ainda quero saber por onde andarás/ andas/ andarias … Preciso neste tempo silencioso dos pontos que unem… aqueles que levam a descobrir o desenho. Não te reconheço. Viajo ao teu encontro. Um delírio? Equívoco. A memória tropeça nos degraus de pedra … os da colina, como se … como se fosse possível existir escada na colina. E nos dizemos sem dizer …

A sanidade depende, essencialmente, de uma estreiteza de visão – a habilidade de selecionar elementos vitais à sobrevivência, ao mesmo tempo que se ignora grandes verdades. O cotidiano o começo do dia, o final deste dia não me garante o amanhã. Sinto medo. Só o meu traçado/trajeto representa a vida, e a experiência interior. E  vida é hoje. Elizabeth M.B. Mattos  – setembro de 2017 – Torres

Não é preciso que uma pessoa sofra de um delírio para se comportar de forma análoga. Ao contrário, uma pessoa, mesmo saudável, pode com frequência enganar-se quanto aos motivos de um ato, tomando consciência deles só depois do evento; para tanto só é necessário que um conflito entre as diversas correntes de sentimentos crie as condições para tal confusão. “(p.71)  Sigmund Freud A Gradiva de Jensen  – Ed Imago – 1997

 

Caderno verde 1999

… no caderno perdido e achado

É verdade que, se examinarmos os fatos com mais cuidado, iremos perguntar – nos se “esquecimento “será a descrição psicológica correta do destino dessas lembranças em nosso arqueólogo. Existe um gênero de esquecimento que se caracteriza pela dificuldade em despertar a memória, mesmo quando há um apelo  externo poderoso, como se alguma resistência interna lutasse contra seu ressurgimento. (p.37)  Sigmund Freud  A Gradiva de Jensen – Editora Imago,1997

Torres, 21 de janeiro de 1999

Nem sempre posso escrever no computador – e – tantas vezes tenho vontade de pensar apenas escrevendo. Contar. Relatar o que acontece e o que, inusitadamente, deixa de ocorrer.

Como mulher tenho pensado que seria muito bom ter um companheiro – um homem ao/do meu lado para dividir o insólito. Mas, na verdade, como pessoa minhas horas estão todas preenchidas por atividades indivisíveis que se sobrepõe ou se amontoam – não consigo fazer tudo o que me proponho. Na maioria das vezes fico como expectadora da minha ansiedade diante da impotência de realizar o mínimo: as aulas, os escritos, a tese, a ordem, as leituras, a correspondência, o telefone. E a casa? Quantas vezes me deliciaria apenas ficar imóvel, quieta e silenciosa.

Os filhos? O Pedro em Torres – e já faz uma semana. Pude sentir e ter toda a alegria neste compartilhar. Trouxe telas, tintas. Joana na Escócia. Luiza dança. E o mar nunca esteve tão transparente, tão lindo! E o verão quente e amarelo!! Não chove.

Trabalho até o dia 24 de janeiro na ULBRA, depois Canoas para a Tese do Doutorado. Telefono para Búzios e descubro que F.H.T. está em Porto Alegre – desde ontem -, e desde ontem eu penso que preciso vê-lo. Estranha conexão. Na verdade, os poderes mentais são maiores, muito maiores, do que se possa imaginar. Ontem …   Na verdade, temos poucas certezas nesta vida quando se pensa amor. Muitas incertezas. Mas somos  tocados com magia. Erotismo chega com o tal amor. Não se toca sem entrega amorosa.

 

Quase meia noite. Joana, Luiza Ana e Pedro telefonaram. Falei com todos,– em momentos diferentes -, uma palavra uma emoção uma cumplicidade. Passei um telegrama para JAK, – e depois liguei  para saber de Gramado, parte natural de seu caminho. Não do meu. Sinto que somos o desencontro, equívoco, outra história. Pessoas trancas, aferrolhadas … E o que dizem, nada mais é do que (acho eu) um dizer vago, solto. Um jeito impessoal. O transcrever também vago, incerto. Ainda martela na minha cabeça  “teu texto é para ser lido apenas por mim” Como seria o não dizer?! Tenho/sinto medo do fato e, paradoxalmente, é justamente isso que me faz escrever. É tarde, última aula da faculdade, do curso de férias – Letras. Terminei a aula com a leitura do texto da Zero Hora sobre Iberê Camargo. E toda a emoção de um esforço voltou quente para dentro de mim. Fui crítica, –  misturo emoções. A corrida de amor desvia do caminho, meu caminho. O que eu faço? Amo? Adormeço? Sigo quieta, laboriosa . Torres ferve, – mais argentinos, desvalorização da moeda, o real. Então, minha viagem, meu sonho, meu caminho, se misturam com a rua cheia barulhenta que canta em espanhol. E. M. B. Mattos /Torres

More Than This

“[…] porque na música não existe um significado, não existe um sentindo, não existem pessoas, mas apenas atmosferas, cada uma delas com uma característica própria, como se elas fossem caracterizadas simplesmente por ser aquilo que são, cultivadas sem corpo nem personalidade, ou melhor, como uma especie de personalidade desprovida de pessoas, e em cada disco existe um número interminável dessas impressões de um outro mundo, que ressurgem cada vez que um disco é tocado. Eu  nunca descobri o que me preenchia quando ouvia música, apenas eu queria sempre mais daquilo.“(p.63) Karl Ove Knausgard, Uma Temporada no Escuro – Minha Luta 4

aberto indefinido

Estamos no Inferno destes tempos de revelações diárias. Incompreensível descompasso. A ficção não está nem pode dar conta do que acontece tal é a farsa, e os farsantes atuam/ jogam/ e gritam e dançam, e representam no palco, nos corredores, sentados na platéia … E não posso sair, estou cansada/ exausta.

… tudo parece fluir, tudo parece aberto e indefinido, ele precisa voltar e me devolver a tranquilidade, transformar o mundo num lugar nítido e sólido …  Elizabeth M.B. Mattos Torres – setembro de 2017

” Na sala de leitura eu peguei a tradução da Divina Commedia e comecei a ler sem tomar notas, o que fosse importante eu lembraria de qualquer maneira. […] Mas apesar disso eu não estava preparado para a sensação de tempo causada pelas páginas iniciais, para o fato de que aquele não era um texto sobre o século XIV, mas de fato remontava  àquela época, fazia parte daquela época, da qual eu também eu também podia fazer parte  naquele momento.

Deixai fora toda esperança, vós que entrais.

O portão do inferno, na Páscoa de 1300, Dante se perdeu no meio da vida e pretende  salvar -se vendo tudo.

Ele há de ver tudo, para assim salvar -se. […] O inferno não era um estado um estado da alma, a entrada realmente estava lá, em pleno mundo, no fundo de um precipício, rodeado em todos os lados por florestas e terras devastadas.” (p. 281) Karl Ove Knausgard A Descoberta da Escrita – Minha Luta 5 Tradução do norueguês Guilherme da Silva Braga – 1 edição – São Paulo –  Editora Companhia das Letras

 

brilho na louça