luminoso farol

[…] “Lendo-te, te amo. É certo que, também, me dás trabalho e exiges que a paciência de preso em cela solitária venha outra vez à tona: a carta rasgada em dezenas de pedacinhos brotou pelo envelope, como água se esvaindo entre os dedos da mão e, logo, me obrigou a um longo trabalho de reconstituição. Um trabalho de chinês. Pedacinho a pedacinho, cantinho por cantinho. Quando tudo está quase pronto, as peças enfileiradas, o rasgo colando – se pela conexão das ideias e das palavras, veio o vento que leva a chuva e tudo (quase tudo) esvoaçou varanda afora. O piso é de sarrafos grossos com espaços entre si e os pedacinhos da carta rasgada pela minha adorável e adorada Gorda  amada desapareceram pelo chão, sumindo como num sorvedouro. (Diz-se ‘sorvedouro’ aí ou isto é, ainda, reminiscência dos meus anos lisboetas?)

A paciência é, talvez, o maior que tenho, além da ternura e da necessidade de amar e de que entendam que eu amo o amor e o ser amado. Em espanhol diz-se ‘crucigrama’, uma espécie, talvez de via-crucis de juntar pedacinhos perdidos e esparsos, pelo vento esparramados na barranca da casa de Búzios.’Crucigrama’ é ‘quebra-cabeça’, literalmente, mas soa como Calvário que pelo sacrifício, nos salva. Recolhi um a um, outra vez, e ei-los aqui, todos os pedacinhos, todinhos, refazendo tua carta rasgada. Doméstica carta, mas só em parte. ‘reli as várias cartas que te escrevi, a primeira jogo fora / é doméstica demais. Já sabes tudo que está escrito ali.’ Nem era doméstica demais, nem a jogaste fora, apenas rasgaste. Dos pedacinhos refeitos tirei a tua frase de não saber namorar por telefone. Talvez tenha sido tua melhor carta, pois foi -pelo menos-  a que me deu maior ansiedade. Estarei contigo buscando a ansiedade que não tenho? A depressão, em mim, sucedeu a ansiedade. Agora, neste momento, sinto-me ansioso, quisera estar contigo, tocando – te, sentindo tuas dobras gordas, apalpando -te,apertando – te.  Mas quase só nisso se resume a minha ansiedade, minha pobre ansiedade de hoje, aos sessenta anos de uma  vida desfeita, que eu anseio refazer a cada momento mas que a depressão impede, corta, evita.” […] Volto a reler tua carta rasgada: talvez por ter sido a carta maltratada, é a que mais leio, gosto, entendo. Começa com ‘estou feliz’ termina (depois de nossa conversa telefônica) com ‘estou pronta. Pintei os olhos, a boca. O cabelo de guri. Perfume.’ ” […] F.Tavares

Um fragmento. Cheiro de amor. Transcreveria tudo, talvez o faça, assim, aos pedaços, num dizer sem contar: derramo sentimento. Jogo sério amar amor.  De repente escrever dizer cuidar fazer, e desmanchar, um/o presente … Vem com ele passado futuro. Ou apenas o retrato de dois intensos ansiosos despedaçados abençoados. Deletar tudo (ou quase tudo) e jogar ao vento sentimento. Volto ao Paulo Hecker Filho (amigo de missivas) raivosas nuas furiosas cartas eu lhe escrevia a dizer o que me passava na cabeça.  A contar de ciúme, de amor-saudade, ou era só nostalgia? Quando se ama de amar tanto! Engolida pela inconsciência. Cartas do acervo. Sinto vergonha grande de ter enviado, mas não de ter vivido. Rabanadas surtos de ternura: contraponto amoroso. ‘Crucigrama’, não desgoverno. A pressão vem com vento chuva trovoada, sol forte. Junto o tal mencionado amor.

Volto para ordenar limpar refletir! Em que lugar do farol vejo mar pedra onda céu azul cinza verde negro e horizonte. Retomo os anos de ser carioca. Inconsequência feliz. Metodologia consciência e trabalho produtivo. Eu te gosto meu amigo, se não vens eu irei. Estou a te contar aos poucos, devagar, a vida que sendo minha também é tua. Eu já te expliquei, se te amo, metade de mim metade de ti somos nós, então cuida da metade que me pertence. Eu cuido de ti. Nada pode ser melhor que abraçar o teu beijo.

Elizabeth M.B.Mattos – abril de 2018 – Torres te espera. Não fica pensando tanto, apenas chega porque aqui tem rio montanha falésia lagoa vento areia silêncio e nós dois. Histórias que sabemos contar.

o cartão amoroso em tons de azul

Cartão de Carmélio Cruz -, 1965.

Aceita a pessoa como ela é. Aceita invasão necessidade de tocar. Passa pelo amor, agarra o luxo de ser dois. Atravessa o limite do vento. O luminoso é ser você no outro e poder deixar o outro ser em você. Albertina d’Assupção Cardoso (…, um pseudônimo que usei em alguns Escritos).

P.S. Acabo de encontrar carta manuscrita, seis páginas. Percebo ao reler que ele “toma emprestado” algumas imagens. Estivemos incendiados um pelo outro. Agora compreendo porque pediu emprestado o meu texto-ideia, um empréstimo amoroso? Se passaram vinte anos. A ideia o jeito o grito é meu. O amor é nosso. Todos os escritos têm um fluxo de outros escritos. Os livros já estão nas folhas de outros livros. Ora, se tantas cartas foram e vieram, se as conversas intensas contínuas se misturaram, … se meu ensaio do Esquizofrênico Amor tinha sido lido, como separar estas junções? “Os beijos que te dou tu não sabes de onde vêm. São teus, do teu corpo e da tua alma, […] Tornei-me um esquizofrênico  da memória ou de mim mesmo: o que queria e desejava agora me impacientava em seguida e me cansava e aborrecia logo adiante. […] Quando te amo, este amor enfurecido de beijos e abraços ocupa todo o espaço da memória e, só então, vivo tranquilo e em paz. Sim, minha amada, […] E por não esquecer te conto, minha amada. Como um grito te conto. Ouve e lê.

Nesta carta de 1995/1996 duas datas porque começada e retomada escrevo:  reclamo resmungo critico, uma enjoada mesmo, mas adoro ir ao teu encontro e passar de um canto para outro a me sentir viva ao teu lado. […] pouco me importam as pessoas, ou o mundo, quero ficar ao teu lado. Pouco importa por onde andes quem amas mais ou por quem chores, eu te amo, e sou melhor porque te amo. Não existe uma única verdade, existem fatos. Dias que seguem outros dias. Vive meu querido, eu estou aqui, ao teu lado, e feliz. Os amores se completam. E.M.B. Mattos –  abril de 2018 – Torres

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