Palavras soltas

1.

“Para Beth

Há outras coisas boas e lindas a ver na cidade neste sábado ventoso de setembro de 1962. O jovem pintor Iberê Camargo pintando carretéis e anda por aí expondo suas cores. É um sujeito engraçado. Gostamos um do outro à primeira vista. Deu – me um quadro. Diz que é suprema honra, pois ele não costuma doar quadro algum, segundo sua mulher, Maria Couseirat. Mas desde já tenho pressentimentos maus. Não com o Iberê. Comigo mesmo. Vejo o quadro despedaçado, os carretéis desfeitos, a moldura cortada na sala de torturas no quartel do Exército, no Rio de Janeiro, na rua Barão de Mesquita. Premonição. Sonho. Fantasia ou êxtase, vejo meu quadro roubado, desfeito por gente que me odeia. Ainda não sei que me odeias, e hoje, neste sábado só sei do vento ventoso quase tipo ventania junto ao qual leio de vindas pelo correio de longe. Todas trazem deste futuro distante de 1994, que visto e sentido desde 1962, perdoe – me, inatingível.

Afinal, a que cinema vamos? Olha o programa no Cacique. Prefiro igualdade de condições. Mas venta um filme francês ou italiano. Ou o sueco Igmar Bergman. Aquele japonês que vi no Clube de Cinema, o Kurosawa não anda em cartaz? Saímos para ir ao cinema, dizem que no futuro, talvez após o ano 2000 as pessoas estarão permanentemente em casa fazendo amor e vendo filmes num aparelho que está por ser inventado, em que o cinema se leve debaixo do braço, ou compra ou se aluga no botequim ou armazém da esquina. Se vê e se devolve. Se inventarem esta coisa será o cinema sem graça, pois não vamos poder tu e eu marcar encontro à porta do Ritz ou do Cacique. Até lá beijos neste post escriptum” F.H.T.

2.

Gorda amada, [ …] ao correr da máquina espalho minha saudade pra te pedir que me esperes com a paciência que talvez já não tenhas. Dia a dia sou forçado a adiar a partida para a manhã seguinte. Mas nada por desídia ou desleixo, mas só porque o quotidiano é feito de ínfimas bobagens ditadas pela burocracia que me amarra aqui. Sinto-te comigo, ao meu lado. Até o frio do apartamento da José Picoral me passa e perpassa pelo corpo. Gélido abraço nele recebi na primeira vez que cheguei, ainda que fosse o aperto mais aquecido de minha vida. A culpa é da falta de uma salamandra que esperava te levar pessoalmente no começo deste inverno e fazer instalá – la aí para dar um toque campônio ao apartamento. Chegarei ainda, em tempo, e, desde já, poderias ver com algum especialista aí como instalar a salamandra, por onde sair a chaminé, qual o material da tubulação, além de todos os etecéteres possíveis e necessários para que esse aparelho com nome que lembra bicho do mato aí funcione e nos aqueça. Sugiro que tentes ver aquele assunto do passaporte, que tempos atrás, anunciava – se que se poderia pedir e receber pelo correio (sim, pelo correio). Para evitar eventuais demoras no caso de que te convidem a viajar, tenta pelo menos ver qual a documentação exigida, como tramitá – la, onde e qual prazo para tudo solucionar – se. Sei que esperavas uma cartinha fac-símile e amorosa nesta estreia do aparelho. Mas não há nada mais poético do que as coisas reais e concretas. Adoro a poesia de um abraço, de um beijo amoroso e apaixonado, ou a paixão de um prato bem servido ou o perfume da boa cozinha. Poesia concreta mesmo. Não aquela que assim foi chamada, mas nada concretizou e tão só “concretou”. Aquela era poesia “ de concreto”. A nossa, poesia concreta. A do abraço, do aperto, do afago. A poesia que tuas cartas descrevem com nitidez, profundidade e extrema beleza. A poesia irreprodutível numa cartinha fac-símile quase pública. Acho que só conseguirei chegar aí no final do mês, ou início de julho. Irei de carro. Aviso-te com exatidão nos próximos dias.” F.H.T.

Em arrumações, encontros. Abril de 2018 – E.M.B.Mattos

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