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Mas não há nada mais poético do que as coisas reais e concretas. Adoro a poesia de um abraço, de um beijo amoroso e apaixonado, ou a paixão de um prato bem servido ou o perfume da boa cozinha. Poesia concreta mesmo. Não aquela que assim foi chamada, mas nada concretizou e tão só “concretou”. Aquela era poesia “ de concreto”. A nossa, poesia concreta. A do abraço, do aperto, do afago. A poesia que tuas cartas descrevem com nitidez, profundidade e extrema beleza. A poesia irreprodutível numa cartinha fac-símile quase pública. Acho que só conseguirei chegar aí no final do mês, ou início de julho. Irei de carro. Aviso-te com exatidão nos próximos dias.
N a inesperada intransigência o conforto do passado. No vazio ou na falta o alimento interior. De dentro. A espera vem de dentro. De dentro. Lembrança empilhada. Mansa terna amorosa. Maio molhado pela chuva que se sacode cantando alto. Hora de pensar inverno e aconchego. E.M.B. Mattos – 2018