segredo

Se os segredos existissem … ah! Existem para serem revelados aos sussurros. Não existem. Ou o Vaticano ainda nos reserva surpresas? Os porões da ditadura sussuram. Gostaria de escrever/dizer e não guardar mentiras cavadas. Vamos aos fatos. Teu telefonema matutino me deixou alegre livre e solta. Das leituras te conto. Gostei do  livro de John Banville O Mar :

O meu pai trabalhava em Meganagh e voltava para casa de trem, numa fúria calada (gosto desta fúria calada) carregando as frustrações do dia como se fosse uma bagagem pesada que pendesse de seus punhos cerrados. […] O que será que a minha mãe fez da vida depois que ele se foi, e que eu não estava mais lá? […] como é estranho pensar nisso, …  Todos parecem mais jovens do que eu, até mesmo os mortos. Posso vê–los ali, meus pobres pais, brincando de casinha, cheios de rancores, na infância do mundo […] Só que eles estavam no meu caminho, encobrindo a minha visão do futuro. Com o tempo eu ia acabar aprendendo a ver através deles, os meus pais transparentes. (p.34)

Nossos pais deixam um rastro, e mesmo transparentes interferem aqui e ali …, deixo de fazer, como se estivesse sendo vigiada, alertada. Droga! De que vale a experiência do outro, a coragem do outro, a incerteza. Onde eu estou nesta história? Sigo a leitura mergulhada neste nada poder nada fazer. Respiro.

Obrigava –me a pensar nela; fazia isso como uma espécie de exercício. Ela está alojada em mim como uma faca e, mesmo assim, estou começando a esquecê-la. A imagem de Anna que tenho no coração já está se desgastando; pedacinhos da tinta, partes da folha de ouro estão descascando. Será que a tela inteira vai estar vazia qualquer dia desses? Cheguei à conclusão que a conhecia pouquíssimo, isto é, de que só a conhecia preguiçoso demais. (Constato perplexa que somos mesmo preguiçosos em relação ao outro, a todos!) Acho que sim, fui tudo isso, mas, mesmo assim, não creio que esse esquecimento, esse não-ter-conhecido seja motivo para eu me culpar. Na verdade, fico pensando se minhas expectativas não foram excessivas com relação a essa história de conhecer. Sei tão pouco a meu respeito, como poderia pretender conhecer outra pessoa? […] Mais uma vez, tenho que me explicar melhor. Não é que não gostasse do que eu era, quero dizer, do meu essencial, singular – embora admita que a própria noção de um eu essencial, singular, seja problemática -, mas dos agregados de afetos, tendências, ideias adquiridas, tiques de classes, coisas que a minha origem e a minha criação me confeririam à guisa de personalidade. ” (p.183-184)

E o mar, a presença constante do mar ao longo da novela, … a plástica de cada descrição. Movimento, cor. A presença de pintores: cada tela mencionada, um mergulho.  Referência a Bonnard, particularmente, chamou minha atenção. Trouxe um pequeno livro da vida e obra dele quando estive na França, gosto muito da pintura impressionista dele. O autor coloca música nas páginas, e a literatura acontece num desdobramento onírico. Jogo complicado, quebra-cabeça. O leitor se envolve escreve ouve, e então, respira com as palavras de Banville num único ritmo. Sinalizadora leitura. Depois de terminar procurei Demian  de Herman Hesse  como se houvesse a resposta às inquietudes devaneios necessidades. Como é complicado difícil viver! Estou a te escrever com dores nas costas, uma pontada na costela esquerda: limitada e egoísta porque não consigo desdobrar o possível. E, de repente, é impossível. Tanto tempo tive para fazer as coisas pelo lado certo; firme chegaria dentro de mim mesma, mas nada, … vejo apenas esta distância enorme! E medo da vontade. Medo descontrole dependência. Fico por aí a perder o tempo desperdiçando a hora deixo correr o que não retomarei. Chupar laranja o sorriso do pai  e os olhos brilhantes da mãe. Voltar. E o tempo danado morde aperta. Eu não sou possível. Tão rápido e atropelado. Não respondes. Saudade miúda grande enorme. Não vou mais repetir. Chuva frio que entra nos ossos. O passado … “ O passado, o passado de verdade, tem muito menos importância do que acreditamos. ” Escreve Banville. Beth Mattos – maio de 2018 – Torres

O MAR texto LEITURA

O MAR LIVRO CAPA

 

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