inocentes cruéis caçadores ou guerreiros

“Gostamos dos homens inocentes, cruéis, gostamos dos caçadores, dos guerreiros, gostamos das crianças.” Marguerite Duras escreve como  se pintasse um quadro. Encena o texto como se estivesse no palco. Individualiza o que pertence a todos. Que a imaterialidade se faça desenho no texto, na imagem. Efervescência e paixão. Recorte de mulher. Há estranhamento na opção mulher/sozinha, homem sozinho. De alguma forma nos espiamos pelas frestas. Toda a vez que penso em fluxo de consciência acrescento a sombra masculina, embora a vida e escolhas tenham sido essencialmente minhas. Vivo fechada, compartimentada, talvez. Nunca dois. Luta de vida inteira: ser eu. Tentativa. Maleável ao amor, ao sentimento. Sofro a condição, mas tenho orgulho da liberdade. Demorei para ser gente grande, atravessei campo minado. Tenho a impressão de que amadureci apenas depois de perder mãe e pai. Eles me tiveram pela mão por longos e intermináveis anos. Sair de casa não é tão evidente como parece. Cortar laços, eleger/escolher a família sem pieguice, mas por afinidade, só a maturidade permite.  E  a tal liberdade que apenas o trabalho nos dá. Fui tentada a permanecer agarrada na irmandade sanguínea. É como estar no útero por toda uma vida, protegida. Amarras.  Enquanto leio Duras eu perco pedaços de Beth ou de Elizabeth ou de Liza …, eu desapareço daquela condição feminina de ser apenas mulher. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2018

“Acho, fundamentalmente, que a situação da mulher, não mudou. A mulher se encarrega de tudo na casa; mesmo que conte com ajuda, mesmo que esteja muito mais alerta, muito mais inteligente, muito mais audaciosa que antes. Mesmo que agora tenha muito mais confiança em si própria. Mesmo que escreva muito mais, a mulher, relativamente ao homem, não mudou. Sua aspiração essencial continua sendo proteger a família, distraí – la, cuidar dela. E se ela mudou socialmente, tudo o que faz, faz em acréscimo a isso, a essa mudança. E o homem, mudou? Quase nada. Reclama menos, talvez. Também se cala mais atualmente. É. Parece que é tudo o que podemos observar. Acontece – lhe de ficar em silêncio. De atingir o silêncio, naturalmente. De descansar do ruído de sua própria voz. […] e, quando o homem se aproxima do lar, a mulher aceita isso? Digo que sim. Sim, porque a partir desse momento o homem passa a fazer parte das crianças. É preciso atender as necessidades do homem e às crianças. E isso para a mulher, também é um prazer. O homem imagina que é um herói, sempre como a criança. O homem gosta da guerra, a caça, da pesca, das motocicletas, dos automóveis, como a criança. Quando ele dorme isso é visível, e nós, as mulheres, gostamos dos homens assim. Não podemos nos enganar a esse respeito. Gostamos dos homens inocentes, cruéis, gostamos dos caçadores, dos guerreiros, gostamos das crianças.” (p.51-52) A vida Material, Marguerite Duras

As ideias estão atrapalhadas manchadas indefinidas. Há que se deter na sombra, na imagem, na coragem, e nesta confusão. Amanhã vou saber mais do que hoje.

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