vida normal

“Não existe o que se chama vida normal. Ele sempre simpatizara com a ideia dos surrealistas de que o hábito embota nossa capacidade de sentir o quanto o mundo é extraordinário. À medida que crescemos, nós nos acostumamos com o jeito como as coisas são, à cotidianidade da vida, e uma espécie de poeira ou película nos tolda a visão, e com isso nos escapa a natureza verdadeira, miraculosa, da vida na Terra. A tarefa do artista consiste em remover essa camada que nos cega e restaurar nossa capacidade de maravilhamento. Isso lhe parecia correto; mas o problema não decorria só do hábito. As pessoas também sofrem de uma forma de cegueira opcional. Fingem que existe o que se considera normal ou  comum,  e essa é a fantasia pública, muito mais escapista do que a maior parte da ficção escapista, e dentro dela as pessoas se escondem, como que num casulo. As pessoas se escondem atrás de suas portas, na zona oculta de seus mundos privados, familiares, e, quando pessoas de fora lhe perguntam como vão as coisas, respondem: está tudo bem, não há nada de novo, tudo normal. Contudo, no fundo todos sabem que atrás das portas as coisas raramente são rotineiras. No mais das vezes, a enfermidade está à solta, visto que as pessoas lidam com pais furiosos, mães alcoólatras, irmãos ressentidos, tias loucas, tios libidinosos e avós decrépitos. A família não é a firme fundação sobre a qual o edifício da sociedade se apoia, mas se situa no âmago sombrio e caótico de tudo quanto nos aflige. Não é normal, mas surreal; não é rotineira, mas cheia de agitação; não é extraordinária, e sim bizarra. […] ‘Longe de ser a base da boa sociedade, dizia Leach, ‘ a família, com sua privacidade estreita e seus segredos chinfrins, é a fonte de todas as nossas insatisfações.“(p.105-106)  Salman Rushdie – Joseph Anton MEMÓRIAS – Companhia das Letras – São Paulo 2012 – Tradução de Donaldson M. Garschagen, José Rubens Siqueira

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