imaginação Isabel – confissão pública

Atabalhoadamente, 24 de abril de 2017 – Torres, na caverna.  Ou foi no verão? No meio do mês de janeiro, começo de fevereiro. Já faz um ano, mais, não sei. De repente um furacão atrás do outro. Uma enorme onda, e eu numa balsa precária em alto mar. Ao deletar apressada estava mal, como se tivesse cometido um pecado mortal, culpada. Nada que esteja dentro do Amoras pode fazer mal, não para quem lê, não deve causar confusão ou ser danoso. Por um momento pensei que teria que terminar/acabar com esta brincadeira do Blog. Tanta coisa boba que já não tem nenhuma importância …  A minha vida é minha, e o Amoras tem seu próprio modo de existir, como disse alguém: “não o transforme em diário”, e uma outra pessoa “ele pode ser diário, pode ser tudo o que determinares que seja”. Alguém se sente atingido, a exposição faz mal. Outros reclamam do excesso de fotos. Meus filhos não se manifestam, entendem. Ana Maria, às vezes, alerta para isso e aquilo, avisa / diz. Então tiro. O neto aponto erros de digitação/ ou português. Pequenos comentários num amontoado de vida e catarse. A escritora que queria ser se afunda em amoras azuis … não consigo fazer mais do que isso. Sei escrever cartas como se convenceu Paulo Hecker Filho (que tanto me incentivou para as letras). Não sei o tamanho que seria de solidão se ele não tivesse existido a me fazer seguir, porque não seria eu agora, seria outra. Fiquei preocupado. Me pareceu que não estavas bem ontem, antes de postar o texto do Amoras de hoje. Exatamente isso, eu não estava bem, não estou bem, mas me determinei voltar a leitura do livro do Brennand, e aos poucos me acalmei. Existe um solitário glorioso bem-estar na minha relação com livros, e se estou lendo não preciso de nada nem de ninguém.

Não estou bem, e não tenho um possível confidente que possa entender o que me acontece. Estou cruzando fronteiras e estou bastante vulnerável.  Quando tu e o sonho se confundiram no meu imaginário cheguei a pensar em deletar todos os comentários. Retirar o que pudesse referir a alguém em especial. Depois pensei nesta minha juventude velha aos 70 anos. Que importa? Pelos teus olhos me vejo menina, pelos teus olhos volto a ter beleza, pelos teus olhos a vida amorosa parece existir. Mas no espelho sei que nada disso é verdade. Apenas imaginação e ficção. G. morreu. Foi uma sensação de pânico e absurdo e frustração e não pode ser verdade.  Ainda choro porque foi pesado; estava tão tranquila nos meus últimos 15 anos … completamente inteira no meu Eu comigo mesma. E dei um passo. E ele morreu. Eu me sinto traída. E tu assumiste o lugar dele porque já estavas com ele, já estavas comigo. Muito estranho isso tudo. Quem entenderia?  Loucura.  As decisões são tuas, mas a emoção é minha. Estamos velhos. Parece um peso de fatalidade que poderia ser leve e feliz e fácil. Tens a família. Todo têm nomes e sobrenomes.  Ou se tudo fosse aberto, público como imaginaste, eletivo …, e por que não seria? Sim, eu sabia onde estavas. Mas assim mesmo esperava ansiosa uma palavra. Eu sabia que só escreverias na madrugada, se escrevesses …, mas eu esperava diferente, embora me pesasse a possibilidade do nunca mais, esperando antecipadamente a perda. Eu sabia deste clima estou escondido / assustado, e me sentindo irresponsável. Dividir faz parte. Enquanto as mensagens se cruzavam, as leituras se confundiam, e mais me calava em relação a tudo, mais eu sabia. Dividir, às vezes, pode ser perder, desvalorizar, ou antecipada realidade que se impõe. Como bem escreves / serve para aliviar a tensão. Ainda não voltei a Porto Alegre. Eu me sinto exausta. Estou indo para Recife passar uns quinze dias. TUDO vai passar. Tua carta trouxe aquela tristeza real que o momento merece. Ninguém entenderia o meu momento misturado com o teu, mas sim uma grande confusão emotiva, um furacão como escrevi lá no início. E na quietude, na ordem, preciso devolver as coisas ao lugar certo. Todos os livros estão no chão ou nas mesas. As roupas em desordem. A geladeira vazia. A roupa por passar. Nada está funcionando. Vou me aquietar. Não vai haver guerra, revolução ou coisa parecida. Nenhum furacão ou ventania levará o que foi dito/ pensado / ou sonhado. Nada nos salvará de nós mesmos. Preciso aquietar. Caminhos diferentes… esquisito. Como te disse, as pessoas surgem / aparecem, ou apareceram ao mesmo tempo, e de repente, desaparecem …, vou ver as datas. Ele querendo me ajudar a transformar o Amoras num livro, e querendo poder ler devagar a íntegra de ser parceria. Tu a leres, e a comentares, trazendo de volta emoções da tua adolescência. Ele querendo  a chave do  trancado / fechado, entender reclusão e esconderijos. Cheguei a imprimir o ano 2012, 2013 e 2017 para podermos trabalhar numa seleção. Acreditei no projeto. E fui a Porto Alegre no dia 3 de abril, dia 4 eu faria exames de rotina, ele morreu na madrugada do dia 5 …, talvez tenha sido a boa morte, como ele desejava Ainda não acredito. Uma amiga comum me socorreu dizendo que ele era o meu Benigno. Viste o filme “Hable com Ella” do Almadôvar?  O protagonista Benigno tem o papel de devolver a vida da personagem que está em coma. É este o simbolismo. Algumas pessoas passam pela tua vida para te abrir a porta, devolver a vida, entregar um presente, dar de volta o sentido perdido. Foi assim que ela interpretou a passagem. Auto estima baixa a minha, desconfiança com o amor. Não sou uma mulher FORTE como imaginas, muito pelo contrário. E, ao mesmo tempo, como ele me preveniu eu me exponho sem nenhuma reserva, perigoso. Pois sou este amontoado de contradições. Represento sempre o mesmo papel, repito as mesmas coisas, derramo tudo de uma vez só e careço de carinho. Careço de afeto. A tal fragilidade da exposição que assusta. Como tu estou a me emocionar. É, certamente, adolescência dos 70 anos. Viver tem o sentido de respirar aberto, ao ar livre, junto ao vento. Sou levemente claustrofóbica. A angustia me tira o ar. Preciso respirar. Não quero sombra, quero sol. Talvez não desse certo com G. -, as histórias ilustram, não acrescentam muita coisa. Como estou agora? Triste. Sigo triste lá dentro, mas hoje vou escutar música para espantar os espíritos. Vou caminhar. Vou esquecer que não estamos tu e eu no mesmo patamar nem perto. Vou tentar entender que nem teus comentários no Amoras são possíveis, nem as cartas, nem a voz porque nem tu nem eu saberemos manter o eletivo de ser como somos. Se corres riscos não é eletivo, nem possível. Tanta coisa a escrever, mas não é nada meu amigo, apenas palavra, tu sabes. E o mais trágico é que estavas na minha história, estavas comigo o tempo todo. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – setembro de 2018, porque é autobiografia, fatia, um pedaço, ou é tudo mesmo imaginação de Isabel? E houve uma transferência. Houve um equívoco induzido …, o que causou outros danos.

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