ainda preso amarrado intenso

Tu ainda estás comigo. Visitas noturnas, diurnas, sombreadas esmaecidas para soar e rimar.  A mão na minha mão. Este jeito ajeitado e desajeito que escolheste para pular a muralha do tempo …, ainda estás comigo. Vou te segredar a verdade. Aquela escondida. Eu não me importo nadinha de nada que me fujas, que me escapes, porque estou contigo. volto contigo na tua pequena viagem, escondida para te espiar nos teus fazeres. Vou volto contigo. Em Torres nos banhamos e ficamos quietos ao sol. Gosto do beijo da areia e do teu jeito de olhar, pelo lado. Acabamos voltando para o quarto. Vou usar o teu nome e desenhar o despedaço desejo de acordar no teu sorriso, na hora que me escapas do travesseiro porque amanheceu… bruxarias feitiços e a boa cozinha, tuas risadas puídas, amorosas. Dois dias juntos sonata valsa canção e silêncio, só beijo. De manhã o perfume das rosas e dos cravos transformados em jasmins nos fazem chorar. Não te importa, meu querido. Sou tua. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

“Durante toda a noite pesadelos circulam pela minha cabeça como a água pelas guelras de um peixe. Quase de madrugada acordo para descobrir que a casa não foi reduzida a cinzas nem fui abandonado em minha cama como um doente incurável. ” (p.251) Philip Roth in O professor do desejo –  o que mais gosto de nós dois é o desastre do desencontro a cada prazer: tudo novo, inventado, resgatado e engraçado, apenas de nós os dois, sem cartilha: ” a beleza, agora, reina no escuro” e somos o “artesanal pueril gostoso e insperado”. Tuas falas se aprofundam no meu silêncio curioso …, tudo é ainda aprendizagem contigo.

 

nova esta vida lenta laboriosa e quieta

Deves perfumar limpar catalogar a beleza do espaço-casa que definiste/idealizaste como teu. Posse completa com sabor/gosto de mel. De modo estranho/vago, fico a pensar na minha na tua e na dela …, vidas. Complementar. O tempo de viver se esfarela neste é meu, é teu, é nosso, era. Foi meu, não será mais, ainda é …, ou não. Lamentável! Não serei/será. Nem teu, meu nem nosso. Imaginação, quase um equívoco. Finalmente chegaste/voltaste para dentro da vontade gulosa de querer e possuir. Eu posso. Poder tem raízes, floração e desdobramento. Absolutamente eu. Por que te escrevo estas coisas? Pura e absurda inveja. Simples assim. Eu, eu te invejo tanto, e muito, desarrazoadamente. Ás vezes saio de dentro da minha desordem tão particular e absoluta, quase que absurda e fico a imaginar como seria ser outra pessoa noutro lugar, e feliz do jeito e maneira que és feliz. Com esta alegria toda eu te vejo debaixo do toldo, regando plantas, abrindo e fechando venezianas para o céu, arejando o perfumado refúgio que escolheste para envelhecer. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

um dia

viu pelo rabo do olho, uma sombra passando. Não era nenhuma sombra, ele logo viu, ” (p. 75) Virginia Woolf ORLANDO 

E isso acontece todo dia quando me distraio e volto a pensar em ti. Sim, e não te conheço. Todos os dias um exercício, e a memória vai e deixa de me perseguir. Caminho. E vinte anos se diluem… Descompasso. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2018

sem conhecer

…, como é que se ama sem conhecer? “[…] ele ia para a cama e sonhava com a mulher que amava havia tantos anos mas que só vira uma vez, e ainda assim por puro acaso. Mas não era por força do que se chama de amor nem de desejo sexual que ele pensava nela. O que sentia era o desejo de um companheirismo de sonho, de um antídoto para a solidão.” (p.191) Orhan Pamuk O Livro Negro

Não dizer NADA quando se diz

Sentimento religioso – invocado para odiar e destruir – em todas as crenças conflui sempre no amor e na solidariedade, caso contrário será perversão ou aberração.  Diz a coluna de Flávio Tavares de domingo, 21 de outubro deste 2018. Correto como reflexão se fosse, minimamente, verdade este confluir no amor e na solidariedade. Roupagem suntuosa e palaciana. Nunca o medo do bicho homem esteve tão violentado pelo desejo do poder eternizado, o verdadeiro vilão desta história. E o homem que se propõe público escondido em máquina de fanfarrice inacreditável inventa, vira e revira, sobe ao palco. Para dizer desdizemos. Para explicar a criação se demoniza a palavra. Escrever é difícil porque somos ambíguos, escorregadios, tardios e, na verdade, amor e ódio se avizinham na paixão. Para dizer religião polir adequadamente o diabo. As pastorais precisam do rebanho, do cordeiro a ser imolado.

Sem citar nomes, critica o Bolsonaro. ” Não entendi o não citar nomes, então, o Flávio Tavares dá um ‘empurrãozinho’ citando o nome. E o que exatamente quiseram dizer com comunismo e bolivarianismo?  Comunismo de comunhão / partilha e divisão, … a ideia de Karl Marx – perfeita e justa para o mundo, desvirtuada. Acho que a selva deve seguir / continuar selva. Esta coisa de se valer de eleições democráticas para criar o demônio. Robin Hood, Tarzan, guerra fria, ou armada? Outra Revolução Francesa, ou …, preciso estudar HISTÓRIA e relações intencionais e humanas. “Dialogar francamente. ” Sem agressões, sem facadas, sem atentados sem Dallas, sem impunidade, com conversa e bons modos. E eleitor com clareza, sem distribuição de benesses sem lavagem cerebral, sem tortura, sem perigo, sem gritos sem exageros, sem apoio de jornais televisões, sem editorais, sem revistas. De preferência, sem voz. Bolsonaro resolveu não participar escreve Tavares, dos debates pela TV, aliás, tão criticados por serem tendenciosos, dizem por todos os lados os telespectadores, Flávio Tavares conclui: “Decidiremos no escuro”, “nunca pelo debate de ideias”, pois é …, nunca pelo debate que cá entre nós, duas horas definiria, esclareceria muito pouco. As ‘invencionices ‘ das redes’, como escreve o jornalista. Pois são elas que estão a polarizar o grande debate, ou o grande mal-entendido, ou definindo a grande Babilônia! Que frase de efeito genial: “E a eleição teria um tom religioso de sacralidade. Não de fuga. ” E eu penso, os candidatos não seriam quem são …, ou outros? E a piada de eleger um sentenciado não teria vingado. E a raiva não estaria no lugar do amor. E conversar seria possível… Elizabeth M.B. Mattos  outubro de 2018

uma suposição

Fechei os olhos para me lembrar de como era a sensação de dormir. Mas a única coisa que existia para mim era uma vigília na escuridão. Uma vigília na escuridão … que se associava à morte.

Ou seja,  a morte  seria uma extensão do sono. Em outras palavras, a morte era como dormir. Comparada ao sono, a morte era um sono bem mais profundo, sem consciência. Um descanso eterno, um blecaute.  Será que a mote não seria uma escuridão profundamente consciente e infinita, como a que estou presenciando agora? A morte pode ser uma eterna vigília na escuridão.

Se a morte é isso, é muito cruel. Se a morte não significa o descanso eterno, qual seria a salvação para nossas vidas tão imperfeitas, tão cheias de incertezas. Ninguém sabe o que a morte. Quem de fato a presenciou? Ninguém. Entre os vivos ninguém pode dizer o que é a morte. Aos vivos só resta fazer suposições. e a melhor suposição é apenas isso, uma suposição. Dizer que  a morte é descanso não faz sentido. A verdade só é revelada quando a pessoa morre. Nesse sentido, a morte pode ser qualquer coisa. “(p.99-101) Haruki Murakami  SONO  Editora Alfaguara

Impressionam as suposições. Não tenho certeza, nem sei. De alguma forma sorrateira, mesmo audaciosa, no escuro, faço suposições. Uma vida e uma tendência, pequenas reflexões, e insonia. Encontros que se fazem para não acontecer, referências. E os dias se sucedem com amedrontadas ponderações. Dentro de uma semana elegeremos um governador e um presidente da república, mas … não tenho certeza se será bom ou ruim, ou terrível. E a vida segue … Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 em Torres

 

o destino

Está escrito, dito,  por isso, destino. O homem pode dizer o que quiser, mas nem sempre pode querer/desejar o que quiser, acho injusto. Saudade: um deserto a ser atravessado.

Por que será que te encontrei, e tu me encontraste para depois desencontrar? Não entendo. Elizabeth M. B. Mattos – cansada deste outubro de 2018