embotamento desapontado

E o verão foi seco, quente, ventoso. Por todo lado havia areia, que cobria muita coisa, também os pensamentos, que porventura tivessem me coçando um pouco a consciência. Mas além de toda a ação paralela e para ir direto ao ponto, eu me vejo se não contente, pelo menos aliviado desde que o rapaz havia desaparecido. As mordidas da dúvida em relação a tudo que se fazia crença empedernida diminuíram. E a ausência do vento em minha cabeça por certo não permitiu que nenhum pensamento levantasse voo. Só o embotamento é que se espraiava dentro dela. Estou satisfeito comigo mesmo e saciado. Um auto-retrato imaginativo daqueles dias me mostraria bem alimentado.” (p.82) Günter Grass Nas peles da cebola Memórias

Trabalho permeia sentimento. O exercício necessário para lembrar, a memória ela mesma, não chega leve nem solta, atrás do tempo, a justificativa. Se eu pudesse construir uma caixa-apartamento isolaria paredes de todos os aparelhos, gosto do silencio ruidoso da natureza. Terrível não poder ajudar, não ter a palavra, não conseguir mudar o incerto. Sentimento inculcado a força, sob pressão, transforma o simples num rendilhado de incógnitas. Prazeres se alternam. Açudes, ovelhas e charolês, o campo e certezas. Não apenas uma memória, tantas lembranças! O querer sem saber se pensa amor… Como explicar? Se os tempos voltassem!  Somos nós, sou eu querendo ser uma Eu que perdi naqueles livros, naquelas certezas tranquilas porque futuras. Hoje repasso as estantes nostálgica. Quanta força! E agora, tão lenta! Se aquilo tudo que foi ainda fosse. Se o cheiro da colheita, ou as porteiras abertas deixassem a risada entrar… As crianças não teriam crescido, e a expectativa corajosa estaria toda aberta a desdobrar do amanhecer os abraços e os beijos pequenos, o cheiro suado de cada um, e o zelo. E as pessoas. Envelhecer tem um gosto desarrumado. Nada importa. E a minha menina brinca com bonecas, faz ginástica, aprende inglês, judô, dança. Céus! Ser criança/menina passa tão depressa! Amanhã vou fazer uma carne de panela, cozinhar batatas. Salada verde vermelha, e o pão e o vinho e a manteiga… Preciso perfumar a casa, colocar as margaridas com as rosas. E me desfazer dos livos que não serão lidos. Belicosa e desatenta é a vida. Elizabeth M.B.Mattos Torres – janeiro de 2019

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