batalha perdida

…este cansaço de viver não está nos sessenta, setenta ou oitenta, nem noventa anos, antes no medo, na covardia, no pudor. Dar passagem sem vontade. Alguns livros sugam a alma, arrancam a coragem. Como escreve Günter Grass nestas memórias que atravessam a minha precária lembrança comum. ” O medo foi a bagagem da qual não consegui me livrar. Eu, que saíra de casa para aprender o temor, tive lições cotidianas. Encolher – se, desviar – se, adequar – se, humilhar – se, essas eram as técnicas lapidares da sobrevivência, que tinham de ser praticadas sem treinamento preparatório. Ai de quem não quisesse aprender. […] Mais tarde, chamei à recordação algumas situações às quais pude escapar apenas com a ajuda de acasos afortunados, e as chamei por tanto tempo até se arredondarem e tomarem a forma de histórias que no decorrer dos anos ficavam cada vez mais palpáveis ao fazerem questão de se tornar críveis até o mínimo detalhe. Mas tudo que se conservou na condição de perigo  sobrepujado na guerra tem de ser posto em dúvida, mesmo que fanfarroneie com detalhes concretos em histórias que querem valer como histórias verdadeiras e fazem de conta que podem ser mostradas e demonstradas como o mosquito no âmbar.”(p.115-116) Nas peles da Cebola

E o medo tem corpo, sentimento, e se sacode incompetente num dia de tanto calor. Não tenho história, não tenho palavras, nem ânimo, tenho medo. Por um momento encontrei uma pessoa que poderia ser o abraço e o aconchego. Equívoco. Ninguém está em condições de estender a mão, atrapalhados com o acerto, o erro político. A cruz do calvário seguinte, o grito, o silêncio. Todos sabem  o que deverá ser correto, quem abandonará o barca. Formigas e camondongos, incerteza. Preciso  correr para o que chamo minha casa, minha caverna…,vou pintar as paredes, e os cupins serão vencidos, e as venezianas me protegerão. Elizabeth M.B. Mattos – ainda Torres de 2019 – quem sabe me mudo para Gravataí?Esqueço o mar e os amores amados. E leio:

“Era a imagem de uma camponesa linda, no seu vestido simples, de pequenas flores amarelas, vermelhas, azuis, laranja e verdes sobre um fundo branco. Além disso ela estava apenas sorrisos, divertindo – se com o que fazia, fazendo – me participar, dizendo que segurasse os saquinhos, que pedisse mais deles à babá. Os pêssegos iam ser muitos […] Apaixonei-me por ela, pela cena, por seu vestido, pelo seu lenço branco, pelo avental, por sua beleza,por sua infinita dedicação com os pêssegos. Senti que, como àquelas frutas, ela me cuidava e me queria. Não resisti a tamanha atração. Tinha de fazer alguma coisa.”(p.59)Fernando C.de Garcia O Ritual dos Pastores

Alguém escreve um livro, mas quem lê se derrama. Viaja, e se transporta. Sente os equívocos, as rejeições, e alucinações…  A vida não tem o limite da terra. Beth Mattos

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