linearidade desastrosa

Na minha apressada, e diria até desastrosa, ida a Porto Alegre, acabei na Livraria Saraiva procurando lápis, caderno e, claro, livros, lançamentos. Ansiedade ou importância, vou ao cinema, e surpresa boa, A esposa com Glenn Close. Concorre, melhor atriz, ao Oscar de 2019, e me surpreendo. Quantas e tantas vezes alguém guarda a história / a carta / a voz de outro alguém para redefinir a sua. Não importa apenas ser, mas fazer, a voracidade da escrita, a compulsão, senão temos história nos apropriamos de quem as tem. Desde cedo persigo narrativas. Hoje menciono Iberê Camargo, Paulo Hecker Filho, Antônio Carlos Resende. Desenrolo minha trôpega vida acadêmica. Tantas muitas inacreditáveis cartas escritas cheias de erros e desmantelados equívocos, sonhos, eu te explico. Missivas compulsivas, insistentes, confessionais. Sinto o cuidado dos amigos. Já doente Iberê entrega um maço de cartas ao seu estagiário Eduardo H. para que me fossem, estas, devolvidas. Foram pinçadas, escondidas, censuradas pelo artista para preservar bravatas gaúchas e exposição. Talvez Eduardo se sirva delas para remendos. Quem vai saber? Ao longo de quarenta anos a correspondência robusteceu. Foram arquivadas pela Maria C. Camargo, mulher e guardiã da obra. O estranho foi a negociação proposta. O rapaz me entregava o que seriam as tais cartas proibidas, e queria/pedia as de Iberê. O que teria eu escrito que exigia censura? Ou o que tem as dele que seriam surrupiadas? Subjetivo. Uma teia?  Eram manuscritas garruchadas escritas sempre, às pressas, as minhas. As do artista, detalhadas, líricas, urgentes, desenhadas, algumas apaixonadas. Guardei. Os catálogos, e os livros e variado material que pode ser livro. Recortes fotografados, sublinhados, defesa do caso do tiro, que resultou na morte de um homem: uma caixa e duas pastas. Objeto de estudo para o Doutorado em Limoges de Literaturas Comparadas. O livro biográfico soprado por ele, nunca escrevi. E algumas de suas cartas foram extraviadas, abertas, antes de me serem entregues. Também era / teria sido objeto de estudo Ernesto Sábato que se arvorou pintor. Marguerite Duras tão plástica! Artistas geniais e lúcidos, literários plásticos. Nada concluído. Vida acadêmica truncada. E das cartas proibidas? Não me foram devolvidas. Não sei o fim. O proibido? A  imaginação? A dele? O beijo roubado? A minha? O que devo eu ter escrito a pensar/imaginar se não fôssemos amigos/confidentes, mas amantes. Blindados os dois. Não fomos amantes. O zelo de Iberê Camargo, preservar sua amiga/mulher e companheira Maria. Fidelidade obsessiva. Malfadado beijo roubado na escada do pequeno prédio da Viúva Lacerda no Rio de Janeiro, idas ao ateliê da Rua das Palmeiras, amizade de Iberê e Maria com os Vianna Moog. Apressadas visitas ao casal, amigos comuns, nenhuma carta macularia o sagrado. Escrevo histórias picotadas coloridas fatiadas fantasiadas. E missivas como pontes coloridas fatiadas e fantasiadas. Como Iberê foi fiel a sua Maria, e ao seu trabalho (preservou, acervo que pode ser apreciado/visitado e revisado na Fundação Iberê Camargo), eu sou fiel a minhas pequenas ambições, e apaixonada por pão e manteiga, cartas secretas. Como escreve C.S. Lewis: ”É preciso muita perseverança para forçar a si mesmo, em sua própria crítica, a prestar atenção sempre ao produto diante de si em vez de escrever ficção sobre o estado de espírito ou sobre os métodos de trabalho do autor, aos quais, obviamente, não há acesso direto. ’ Sincero’, por exemplo, é uma palavra que devemos evitar. A verdadeira questão é o que faz uma coisa soar sincera ou não. Qualquer um que tenha censurado cartas no exército deve saber que pessoas semiletradas, embora não sejam na realidade menos sinceras do que outras, raramente soam sinceras quando usam a palavra escrita. Na verdade, todos sabemos, por experiência própria, ao escrever cartas de condolências, que as ocasiões em que sentimos mais pesar não são necessariamente aquelas em que nossas cartas sugiram isso.  […]  Eu ficaria feliz em ser mais austero do que o necessário. Devo admitir que palavras que parecem, em sentido literal, implicar uma história da composição podem, às vezes, ser usadas como meros   elípticos para o caráter do trabalho realizado. ” (p.229-230) Clive Staples Lewis Sobre histórias – Tradução de  Francisco Nunes.

História pessoal, tens razão, nunca sou linear ao mencionar minha vida. Não sei dizer o porquê. Uma fuga. Não aceitação. O medo. Insegurança. Reserva, timidez.  Pânico real ou respingos, mais muito do indefinido M E D O. Tudo pesa ou não é. Seria mesmo importante? Amor transbordante. Apaixonada, dispersiva. Encabulada. Não sei. Eu me perco em detalhes, e não vajo o todo. Sei lá! Pensei que tinhas caminhado pelo  Amoras Azuis e já sabias tudo. Pretensão!  Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 201

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