texto perdido, achado

1.

O telefone silenciou. A rede de informações também. Extravasou aflição nas lágrimas não derramadas… Fechou os olhos para dormir. Do outro lado a cena continua: ninguém pode saber o que está na intenção das pessoas.

A mulher, mãe dos filhos dele, pega lotação todos os dias. Trabalha para uma corretora de imóveis. Na idade dela, sem nunca ter trabalhado, sem qualificação específica, pode aprender a vender. Ou alugar moradia, ou vender pastel e refrigerante, alugar vestido, enfim, o comércio. Ela entrou no ramo imobiliário aberto para toda e qualquer faixa etária; abraça uma gama diferenciada de pessoas. Diferenciadas não pela qualificação específica, mas pela necessidade de saber lidar com as pessoas: polidez. Vender o produto, mas negociar, nem sempre. Fisgado o peixe o negócio se faz sozinho. O empregado encarregado, ponte necessária ao fluxo de procura. Apesar da pobreza e da situação de calamidade do país, parcela razoável de pessoas habita ou casas razoáveis ainda com jardim, ou chamados, bons apartamentos que desfilam neste comércio imobiliário necessário. Corretoras acolhem pessoas de todas as idades, comissão, e não perdem dinheiro. É nesta situação de isto ou aquilo acontecer que ela encontrou trabalho, – se consideramos emprego tal situação.

Igualdade da mulher, direitos humanos. Caráter e convivência de trinta anos num casamento não modifica senso prático generosidade nem dinheiro. Afinal, negócios são negócios: relação direta de pai para filho. Depois do dinheiro, tudo o mais é o resto.

Nessa situação caótica meio ao litígio de uma partilha dita importante os dias seguem formando anos: assim é a lei tartaruga. Embalada na própria solidão, dividindo o pouco. Ironia. As pessoas pensam que sabem do passado do outro…, equívoco. Tudo que for referencial ou já conhecido tem a marca de apenas uma das facetas. O visceral que se deteriora na lembrança não é isso nem aquilo, muito menos aquilo outro. Como saber a história toda a alma por inteiro, ou o sentimento?

As pessoas que a viam entrar na lotação atrasada ou cumprindo o horário, sair da lotação viam/enxergavam apenas os sapatos com saltos bem altos, a saia justa, o rosto maquiado já de manhã bem cedo. Cabelos puxados e arrumados. Olhar de quem procura. O que mais? Vazio.

Agora aquela história estranha do desaparecimento da filha. Não chorou. Por que o faria? Apenas engasgou e ficou seca, quieta. Ninguém bateu na porta. O telefone não tocou. Pensou na filha afastada, agora refém. Com quem conversaria? Bateu na porta da vizinha porque sabia estar vendo o último programa da Bandeirantes. Ritual. Pediu uma cerveja, comentou da insônia. As duas ficaram ali mesmo segurando as portas no corredor no meio de três palavras. Julieta, a vizinha, aproveitou para devolver o quilo de café da semana passada. Deu boa noite. Sonia pegou a cerveja. Vou fazer pipocas, pensou. Elizabeth M.B. Mattos – 14  outubro 1999 – Porto Alegre

 

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