cruzando poemas Yeats e Bandeira

A ilha lacustre  de Innisfree

Vou levantar -me e ir agora, e vou – me para Innisfree,

E lá farei uma choça com barro e vimes torcidos;

Terei feijão, nove filas; e abelhas terei ali;

E estarei só, na clareira entre os zumbidos.

E lá vou achar a paz, paz que pinga devagar,

Que pinga dos véus da aurora para onde cricrila o grilo;

A meia-noite ali brilha; o meio-dia é esbrasear;

E o poente… pintarroxos vêm cobri – lo.

Vou levantar – me e ir agora, porque sempre dia e noite,

Ouço o marulho das águas que no lago vêm e vão;

Se na estrada me detenho, ou sobre a calçada fria,

Escuto – o bem, lá dentro do coração. W.B. Yeats

Tradução de Paulo Vizioli

(A will arise and go now, and go to Innisfree,)

 

 

Vou – me embora pra Pasárgada 

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manoel Bandeira

E eu inventei, outra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Pra Pasárgada que inventei.

Sem Bandeira, sem pedra no caminho,

Sem Meireles pra explicar,

Vou – me embora pra esquecer.

Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.

Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,

Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção

Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.

Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…

Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.

Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.

Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!

Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,

Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.

Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.

Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?

Vou-me embora pra Pasárgada.

A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014

 

 

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