cartas

carta 1

Un journal est un miroir qui vous renvoie vos propres grimaces…” Paul Bowles (acabei de encontrar num velho jornal francês, estou a organizar, jogar fora velha papelada). Além dos diários que nos devolvem as próprias caretas, a correspondência. As cartas…

Tuas palavras e teu jeito único de dizer as coisas dança comigo. Quero reencontrar: o escrever solto, vida escolha -, tenho certeza da bagagem preciosa da tua memória. Estou envolvida com notícias, com a revirada do país um pouco sem graça, sem palavra, outro pouco querendo que o temporal traga uma leveza menos imunda, menos menor do que já é. Deste mínimo que foi o pronunciamento.

Estou a te escrever faz tanto tempo! …, penso na correspondência, na intimidade, e escorrego. Esquisito isto de escorregar e súbito insegura. E outras vezes eu também me sinto/vejo/percebo ser forte, uma fortaleza meio de sobrevivência. O meu pecado é cair na amorosidade. No desejo contínuo de encontrar o parceiro certo, o homem que eu imagino ou que está ali ao meu lado, escondido. E cá entre nós, este tempo terminou / acabou. Não faz sentido. É o meu lado infantil / de menina. Estranho que amadurecer seja um processo tão longo! 72 anos tem uma imponente estatura. Fatidicamente condenada a arruinar o próprio tempo de ser pessoa/mulher? Estou a divagar/perdida…Gosto de imaginar que vamos nos encontrar para o chá com bolo biscoitos e uma tarde inteira só para nós duas. Escreve. Te gosto muito e de nós duas conversando.

carta 2

Obrigada por teres ligado, por escutares, pacientemente. Eu lá fico pensando nas coisas ditas às pressas, nestes sentimentos atrapalhados que nos prendem, tanto quanto nos fazem voar. Um dia depois do outro, muitos, e uma parada no tempo. Quanto ao dinheiro gastei, meio sem pensar, em coisas bobas como lençóis, uma caneca aqui, um bule, uma fantasia. Um par de brincos. Revistas. Bobagens. Torres ajuda. Não tenho tédio, aliás, não dou conta do tempo, é rápido demais. Tenho problemas interiores adquiridos (antigos), pânicos, apagões, incapacidade… Gostaria de fazer de verdade, ter coragem. Fiz sempre mais ou menos. Não estou me lamuriando, são as culpas. O que é mais forte que a consciência? E roubamos assim, alguma coisa da leveza de nossos filhos. […]

 

carta 3

estranho como hoje tua lembrança veio forte e poderosa

 

carta 4

Lavando as roupas nível mínimo, prestando atenção aos saltos e ostentosa gritaria da lavadora, vou, aos poucos, eliminando o amontoado de lençóis, fronhas e toalhas da cesta. No intervalo arrumo a gaveta, reviso notas, passo endereços e telefones recentemente perdidos para a nova agenda 2014. (Maquininha infernal o celular!) Novos pregos na parede para novos quadros. Curioso toda esta agitação doméstica! E leio o jornal. Ação contínua de um bom domingo ensolarado, ventoso, assim bem fresco. Hoje cedo fui ao supermercado comprar pão, refrigerante, manteiga nova, detergente, e a Zero Hora.  Lendo de trás pra frente, destaquei a coluna do Santana escrita pelo interino Moisés Mendes, Gato ou Cachorro: “A vida e suas escolhas. Você acha que uma das grandes decisões da humanidade é esta que deve tomar agora, no vestibular, por exemplo, entre Engenharia e Medicina. Outra escolha: você tem que optar entre pegar logo aquela bolsa e ir para Paris, ou ficar por aqui mesmo, porque a Sorbonne já não tem tanto charme e a Bruna pode arranjar outro: você vai estudar o fim da pós-modernidade em Paris, volta insuportável e ainda perde a Bruna. Ou fica aqui não evolui como pessoa e perde a Bruna de qualquer jeito. Ou esquece a Bruna e se inscreve como candidato a colonizar Marte, com passagem só de ida. No fim as grandes decisões mesmo são as cotidianas que podem mudar muito mais a vida de alguém do que dois anos na Sorbonne. Uma decisão grave, que o mundo ocidental enfrenta é esta: gato ou cachorro? […] Gatos são femininos, cachorros masculinos. […] Cachorros, com certeza, sorriem.  Gatos são impassíveis, mas intuitivos. Dizem que os gatos previram, por agitação noturna, a crise de 2008 que quebrou Lehmann Brothers e as bolsas, um cachorro menos apegado a bens materiais, não entende nada de capitalismo. Mas, enfim, questões práticas dividem e unem gateiros e cachorreiros. […]” E segue citando nomes e motivos, muito engraçados porque as pessoas gostam ou desgostam deste ou daquele. Só faço pensar em ti e nas danadas das escolhas. Tuas, minhas, na loucura das decisões, no tumulto interno, no silêncio necessário, neste ir e vir das pessoas porque é verão. Para nós a estação do sol é boa como a das chuvas, e o mar está sempre lá nos recebendo, os cestos cheios de amoras, e todas azuis, o som das canções é francês, e as noites se invertidas, sempre divertidas, embora no mesmo lugar, sem ir e vir, mas ficar. Quanto a máquina de lavar encontrei solução. Uma delas é usar óculos todos os dias e ver longe e perto fica resolvido… Leio as letras miúdas das instruções. E escuto tua voz: “Nunca usei esta máquina de lavar!” Penso nas vezes em que estiveste perto e longe. Em Paris, ou Berlim, Boston ou Verona. Ou era Veneza? Depois o Rio de Janeiro, outra vez Porto Alegre, muito pouco Torres para usar a lavadora. A tua lavadora. Projetos urgentes, depois mutantes. Com as decisões do cotidiano priorizando as outras. E a vida acontecendo depressa como e fosse mesmo um risco no céu, um cometa, ou veloz como carro da Fórmula 1, ou surpreendente como o dia nascendo, e a noite chegando, o trajeto da roda gigante. Enquanto eu sigo sentada na poltrona da sala, pés nas almofadas, evitando aquela danada dor, lendo ou costurando, ou apenas olhando para trás. E tu neste ritmo todo, ora aqui, ora ali, cheia de sonhos e planos que dourados, azuis, ou verdes acontecem, acontecem na ponta da tua vontade corajosa. Penso em ti o tempo todo. Estará hidratando a pele, usando os produtos certos, cuidando do cabelo? Comendo o necessário, não pão, manteiga e café preto como a mãe, não dormindo muito tarde, mas vendo o sol nascer, fazendo exercícios para guardar a beleza, a boa beleza da saúde que a pele, as curvas mostram, e a juventude aponta. Tratando os pés, e os cotovelos. Segue tendo aquela imagem que só eu tenho, o cheiro que apenas eu sinto. Eu te vejo e te penso sendo tu mesma o tempo inteiro.

velhas cartas – hoje em maio de 2019 – madrugada

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