estranho, virtual, paralelo

Enveredamos por caminho estranho, virtual, paralelo. E não estamos, nem tu, nem eu a pensar que a vida, a vida acontece noutra dimensão, sem ficção, sem poesia, eu diria até mesmo, sem música. Branco e preto. Tem odores, convicções, e na verdade, nem cartas existem, nem envelopes, nem tinta, nem o correio funciona, poucos telegramas, nem urgência. Tudo acontece na mesma hora, a comida pode chegar pelo telefone. E os livros aparecem inteiros e virtuais nos tabletes. Tudo é o agora. Já abro os olhos corro para fazer isso ou aquilo, café, aspirar, levar o cachorro para passear, lavar a louça, recolher a roupa do varal, colocar as toalhas na máquina de lavar, estas pequenas atividades que são chamadas de domésticas. Ou pensar neste ou naquele filho, perguntar pelos netos, ser ouvidos, dar respostas, perguntar, resolver o que vou comer na hora do almoço. E vivo sozinha. Consegui ser eu comigo mesma. Claro que antes tinha os filhos. Luiza tinha sete anos quando chegamos em Torres, já está com 32 anos. Nesta ocasião a velha estava na Alemanha, Pedro já voltara a morar no Rio de Janeiro, apenas a Joana comigo, em casa. Todos foram viver suas vidas. Um dia me dei conta que estava pela primeira vez na vida absolutamente sozinha. E já estava a envelhecer. Enfim, o curso normal / natural da vida. Enamoramentos não tinham lugar. Chegado o inverno de envelhecer também o razoável tempo de amorar, fazer amoras azuis. Enfim, acionei o equilíbrio e o lógica razoável de ser apenas uma avó como tantas outras, ou melhora, diferente porque amorando

Aos 70 anos começo o percurso para chegar aos 80, ou 90 anos. Então, terei vivido muito e bastante.

Estou me sentindo adolescente nesta investida que no meu imaginário inclui beijos e abraços, olhares, mão na mão. Quando lamento a morte de G. não é apenas ele, mas a minha ilusão de uma história que mais se diria estória porque fantástica, colorida. Onde um beijo, um carinho, o tato poderia voltar a significar. Um para o outro, eu. E depois lá estás a mencionar afinidades eletivas, e eu me desviei.  Eu me sinto esquisita, estranha porque insisto que preciso te olhar, sentir ou não ver o amigo, o outro, mas o homem. Neste sentido fico pensando que não é preciso marcar um encontro, passar pela espera, acertar um passo. Poderíamos guardar a marca do século XIX quando as missivas tinham a importância justa.  Seis aviões, em acrobacias, interrompem minha carta. Adoro aviões! Adoro a vida. E agora estou apaixonada por nós dois, é isso que eu gostaria de te dizer? Elizabeth M.B. Mattos –  abril de 2017 -Torres

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