agora do passado

Da carta para o verbo – Torres cinzenta: vento, nuvem sem a chuva, e o desânimo

DO PASSADO

  1. 2003 Fundação Iberê Camargo: filme. Exposição de fotografia no MARGS. Ainda me importo com a cidade/movimento cultural, e acredito em solução. Escondida no preto, inconsciente da importância do evento, levo/carrego apressada urgência. Brota, ressurge esperança, não sei de onde. Existem mortes imperceptíveis, frequentes. Ser despedida da galeria no momento em que transferi tempo, empenho. Desastroso. Morri. Sonambula vago perdida. Concursos. Editais. CETEC e cursos infindáveis. Tento equacionar os passos. Faxina, lavanderia, contas telefônicas, pressa/agitação/ansiedade, insônia.
  2. Detesto o cheiro da poeira, a limpeza de ontem não foi suficiente. Obsessiva. Impotente. O coração se agita. Deve ser o tal de renascer. Coisas inacabadas! Preciso concentração para sair do atoleiro. Irei a Torres na segunda-feira ou na terça-feira. Irei sem os pacotes natalinos, esqueço a lembrança iluminada. Não seria hoje sem aquele feitiço. Trinta anos atrás, vinte anos atrás! Coragem menina! Vou resolver. Atropeladas coisas a contar, esmiuçar e a descrever: despedida, quase sem explicação, contenção de gastos. Escrevo a história na releitura sádica. Sem lágrima. Eu ainda podia.
  3. Escuto tua música, os dedos batendo no piano a sangrar. Sem parar. Prisioneiro do teclado a me consolar. Estou possuída pelo demônio das cordas. Eu te chamo! Não escutas. E estás aqui em todos os pedaços que estou a juntar pela casa, espalhados, vou colando um ao outro. Quero todo o teu corpo.
  4. Carta amorosa, e tens razão. A chave da alegria, o agora. Esperar amor, não o que não aconteceu. Não se afundar em lamento. Escreves: não alega que não estás na tua casa, não alega que não tens dinheiro, queira estar bem! Bem! Bem, não consigo estar. Bem! Encontro soluções imediatas, alugar o apartamento, morar com a irmã, aceitar ajuda dos filhos, e aceitar o limite. Agarro os limites. Recomeço. E guardo os cinquenta e nove anos com a marca do número nove. Navego no meu barco, seguro o leme, pode ser liberdade. Não estou alegando. Olho nos olhos, sinto. Volto a ser menina e assustada. Respiro, aguardo resposta, levanto, acordo da insônia, e sonho com amor. Eu vou melhorar. Obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 20192019-10-29 11.41.41

 

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