não devolvi Luiza, teu Depardieu

Lembro da tua pequena e preciosa biblioteca. Sempre o especial. E me beneficiavas. Eu não gosto de emprestar livros, não voltam, ou se perdem no caminho da possibilidade de voltar… Não gosto de ler livros emprestados. Somem na minha casa, e não posso riscar escrever, ou maltratar. Este livro do Gérard Depardieu As cartas roubadas é teu. Cartas/ correspondência -, já me identifico.  Beth Mattos2020-01-12 08.41.40.jpg2020-01-12 08.41.55.jpg

Amanhã, a partir da aurora… Quando era criança,tinha um medo horrível de ser surpreendido pela escuridão. Quantas vezes andei até me sentir esgotado, até dormir em pé para evitar de me encontrar sozinho com a natureza. Na minha imaginação, os barulhos da noite, os gritos dos animais, as árvores, o vento, viravam barulhos humanos. E tinha certeza de que ia ser levado, transformado pela natureza em rochedo vivo, ali mesmo. De manhã, quando o dia se espreguiça, estou sempre acordado para assistir ao seu despertar. Na África as árvores começam a se mexer às quatro horas da manhã. Gosto do campo muito mais do que do mar ou da montanha. A praia me dá nos nervos. O sol me irrita, me tira do sério. Gostaria que ele me deixasse em paz um pouco. Não há nada mais vulgar do que este sol cartão-postal. Só me sinto a vontade nas praias do Norte, onde os sóis são frios, recobertos por uma leve camada de geada. O calor me mata. Sou uma planta, uma planta como a hortênsia, uma planta de sombra. Ou então um ciclâmen selvagem,é mais sutil e cresce nos bosques. São espécies de florzinhas que ainda não abriram, muito delicadas nas suas cores. A montanha não me convém muito. Sou alguém que atravessa, não tenho espírito de escalada. Não sei subir, tento sempre contornar. Prefiro chegar às alturas e outras maneiras. Sou mais sensível às virtudes iniciáticas do deserto, é uma escola de humanidade. Durante a filmagem de Fort Saganne, na Mauritânia, construí para mim um jardinzinho do tamanho da minha mão. Bastam dois grãozinhos e a vida recomeça.[…] (p.101-102) Depardieu

 

 

2 comentários sobre “não devolvi Luiza, teu Depardieu

  1. Vivendo e apendendo.acho o Depardieu um ogro kkkk e de repente essas palavras de uma grande riqueza interior.
    Me encabulei.mais uma vez julguei pela aparencia.
    Beijo Beth

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