1994, faz tanto tempo! céus!

Estranho estranhamento. “Sentado no patamar, espero a chuva. Dela necessito para que seja verde o verde plantado no barranco-jardim que me conduz ao mar.”

Assusta a seca deste tempo sem chuva, o excesso de sol, de vento e o poder de mastigar a água… A carta segue assim:

“Será a imagem de mim mesmo? A natureza copia o que eu sou? Tenta ( a natureza) ser como eu sou? Magra e pálida. Esquálida, mas resistente. Acabo de ler tuas cartas, chegadas pelo correio a Cabo Frio, de lá trazidas à mão ontem e entregues hoje pelo  meu caseiro. Como vês, tudo normal, à antiga. Lento para que seja saboreado. Teu relato do(s) diário(s) de março de 93, maravilhoso, profundo. Já te disse que o ‘diário’ é a forma literária por excelência, a que diz de nós mesmos com a intensidade de tudo o que somos, sabemos, queremos ser, pretendemos, sonhamos. Li – os primeiro, por mera casualidade. Depois, tuas cartas, dactilografadas (por ser mais fácil) antes, logo as manuscritas (teimo em escrever manuscriptas, pois me parece mais authêntico…). Lendo te, te amei […] Lendo -te , te amo. […] a carta rasgada em dezenas de pedacinhos brotou pelo envelope, como água se esvaindo entre os dedos da mão, logo, me obrigou a um longo trabalho de restituição. Um trabalho de chinês. Pedacinho a pedacinho, cantinho por cantinho. Quando tudo está quase pronto, as peças enfileiradas, o rasgado colando -se  pela conexão das ideias e das palavras, veio o vento que leva a chuva e tudo (quase tudo) esvoaçou varanda a fora. O piso é de sarrafos grossos, com espaços entre si,  e os pedacinhos da carta rasgada […] desapareceram pelo chão, sumindo como num sorvedouro. (Diz – se ‘sorvedouro’ aí ou isto é, ainda reminiscência dos meus anos lisboetas?) A paciência é, talvez, o maior que tenho, além da ternura e da necessidade de amar e de que entendam que eu  amo o amor e o ser amado.”

E toda ela, a carta, faz a volta no/pelo amor amado de amar do mar. Estas coisas de amar ou apaixonar ou sei lá como se diz. Ou são apenas mar… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2020 depois de tantos! Quantos anos!

Não quero de volta o passado. Passou! Mas, mas, mas…, tão bom ter passado!

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