das cartas

Estou a esperar a resposta. Acordar cedo e sair, bom. O mundo a despertar! Tu, eu e aquele mais outro que acredita ser bom “pegar um vento, rua quase vazia, o sol aparece entre nuvens e prédios”, e, este gostar de estar no Rio de Janeiro. O mesmo texto.  Depois, esta história de dia só para nós… Puxa!!! Isto também importa: “um dia só para mim, um dia sem ficar com esta ou aquela pessoa, ninguém. Um dia sem telefone. Um dia meu, para gastar sem fazer nada, tudo bem e não ficaria com remorso, ao contrário, até mais feliz”.  Feliz – palavra toda cheia – transborda fazer gostoso: entrar no mar e explodir na água, queimar no sol, ter cabelos outra vez, rir, beber sem ficar tonta, beijar, beijar muito e bom e gostoso, sentido no beijo o outro, e o outro no beijo da gente. Tudo isto é acordar de manhã cedo, sair sozinho, estar no Rio de Janeiro, amanhecer inteiro pro prazer. O beijo ficou em casa. Só hoje.  6/6/2004 15:52:39

DESENHAR, DESENHAR, DESENHAR, DESENHAR, APREENDER, APREENDER, APRENDER, de repente é fazer.

Quero  o filho comigo. Estar muito tempo/ bastante tempo: ficar, sair, andar, não falar, comer torradas com chá. Estar junto, um do lado do outro. Sentir frio. Decidir. Pensar um pouco, quase nada, mas sentir e voltar. Ou levar a mãe daqui com a ideia de que tudo vai mesmo explodir em mágica se ficamos como se estivéssemos, outra vez, em casa, no útero (coisa quente que se inventou e se guarda). Ter casa. Mas, não somos apenas nós mesmos com este mal estar de pele, esta inquietude constante… Quero também a Lú quieta, pequena, menina, deitada no meu colo. Nós e a nossa pele que troca, que muda, que seca, que fica macia neste amor. A pele! Pinta! Desenha. Vou grafitar os vidros da minha janela…

Quando quero que o sol entre abro as cortinas, e fico olhando para as roupas dos vizinhos penduradas nos varais que saltam das janelas deles, os vizinhos. Assim, vou me contando a história das calças, camisolas, camisetas, lençóis com bordados, com quadrados, panos de prato, de chão, blusas. Tudo querendo secar pra sair andando no dia seguinte. Sem hora, minha senhora, eu me digo: depende do sol, da chuva, do vento, da memória de recolher a roupa daquela gente que mora, como eu, encaixotada do outro lado: umas sobre as outras. É a minha janela, estes vidros eu vou pintar, exercitar neles as cores… Enquanto penso ainda posso ficar deitada na minha cama, enfiada nas minhas cobertas com cinco ou seis travesseiros. Espio aqueles varais todos secando no amanhecer.

Vai, meu filho, pintar, desenha. Desenha muito, tudo. A cada folha um rabisco e na outra a ideia do rabisco na palavra, depois a ideia da utilidade do novo no velho. As aulas! Se as aulas seguissem! Acho que é preciso aprender, aprender, envolver os olhos e a sensibilidade toda. As aulas.

Quando escuto uma pessoa mencionar um professor, arrepio. Penso que a cada olhar nós ensinamos, e a cada olhar aprendemos. Usar a dor e a disciplina. Dor e dor e aquele sentimento inteiro contraditório que nos ajudam a fazer. Estar só. É preciso estar sem o ruído do mundo, sem a voz, sem o tato, sem água, sem comida. Só o desejo de fazer, e as ideia de refazer… Parece que tudo está pronto. Acho que o mundo está mesmo pronto, mas há que ser refeito. ( contraditório!) Oxalá possamos assim terminar… Ao menos nosso círculo, terminar em nós mesmos o que ainda não terminamos. Nós é que somos o tema, a ideia, o fazer, o desenho. E saber olhar este inferno ao espelho. É isto Pedro. Ali está o que somos e o que falta. E o que se escreve? De quem é? Para quem é? Eu não sei, não sei. Vou ter que escrever só para mim. É isto. E tu vais pintar e desenhar primeiro para o teu prazer. Acabei de conversar, ao telefone, contigo e com a Cláudia, festejam! Pena não ter ido beijar o magro por mim! Se o encontrarem, abracem. Ele mercê todos os beijos e os abraços que são gostosos de dar. Bebam bastante vinho e beijem muito, muito um ao outro. Muito. O beijo muda tudo, transforma tudo. Toquem um no outro, e isto é bom. Vocês, afinal, podem ser completos nesta mistura de angústia com prazer, de choro com riso, de quietude e tanto barulho o que importa: um beijo. Ter o Rio dentro da gente o próprio sentido… Saudade da vida. Saudade do Rio de Janeiro. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 entre/no velho arquivo das cartas, ano de 2004

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