maternidade

Amar com toda a alma e deixar o resto ao destino, era a regra simples que ela seguia.’Vot zapomni [agora lembre]’, ela dizia em tom um tom de conspiração ao chamar minha atenção para esta ou aquela coisa de que gostava em Vyra -“ (p.39) E eu me pergunto se existe um momento, um minuto em que deixo de carregar a maternidade… Será que transferi aos netos? E apenas bordejo o sentimento sério de contar/escrever/transcrever o que vou sentir quando vieres me visitar, e quietos tentaremos encontrar os sonhos, os pastéis e todos os sucos da nossa lembrança porque fecharei os olhos e serei menina, e tu poderás apenas sorrir, feliz…Vamos fazer a roda e vamos nos dar as mãos.

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Foto de João Brentano

Mater / mãe e continuação. Algumas leituras e tantas voltas eu sinto na continuação… Este sentimento a germinar/abrolhar protetor e vigilante a crescer na maternidade: filho e mãe /abraço. Estou a ler devagar FALA, MEMÓRIA de Vladimir Nobokov. Ele escreve com a riqueza russa se posso explicar deste jeito, um vocabulário da elite e não se inibe em descrever o luxo com que viveu, e a delicadeza se estende aos pais, principalmente a mãe. “Minha mãe tudo fazia para encorajar a sensibilidade geral que eu tinha pela estimulação visual. Quantas foram as aquarelas que pintou para mim; que revelação foi quando me mostrou que a árvore lilás brota da mistura de azul e vermelho! Às vezes, em nossa casa de São Petersburgo, de um compartimento secreto na parede de seu quarto de vestir (e no qual nasci), ela retirava uma massa de joias para minha diversão à hora de dormir.” (p.36) E eu me dou conta que filhos e netos, estão cravados na minha vida tanto quanto um dia me senti cravada/apertada/colada na vida de minha mãe e do meu pai. Se oscilo na curva e no encanto, e na incerteza e no absoluto do que entendo amor, estou agarrada nesta luz. E as histórias de insônia, de espera, ansiedade e alegria genuína pertencem a eles (ao pai e a mãe e aos filhos e aos netos). As mães sentem veem com tanta nitidez a nebulosa de um filho! A maternidade. “Por baixo de meu delírio, ela reconhecia sensações que havia experimentado em si própria, e sua compreensão levava meu universo em expansão de volta a sua norma newtoniana. […] e ao escrever isto me volta o toque desta ternura reticulada que meus lábios costumavam sentir ao beijar o rosto dela – voa para mim com um grito de alegria vindo do passado azul de neve das janelas azuladas (cujas cortinas ainda estavam bertas). […] Poucos minutos depois, ela entrou no meu quarto. Trazia nos braços um embrulho grande. […] Ora, o objeto se revelou um gigantesco lápis Faber poligonal, de um metro e vinte de comprimento e grossura correspondente. […] Era, e alguns anos depois satisfiz minha curiosidade fazendo um buraco do lado para descobrir que o grafite percorria toda a extensão do lápis – um caso perfeito de arte pela arte da parte da Faber e do dr. Libner, uma vez que o lápis era grande demais para uso e, de fato, não era destinado ao uso.” (p.38) Não transcrevo a página inteira, quero dar apenas uma leve ideia da beleza e cuidado com que Nobokov escreve estas memórias zela/cuida para que os detalhes sejam preciosos. Nesta lembrança a mãe. Estes laço de amor extremo é a costura da Arte da Lembrança – significado de Vida. Então eu costuro a rua Vitor Hugo os desvelos da minha mãe. Ela deixou de ser ela para estender/esticar o mundo das filhas. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 Torres – Tenho este luzeiro aceso enquanto  filhos/netos se agitam a buscar o caminho. E na fantasia estendo o braço, as palavras para a fantasia do parceiro invisível, mas são eles que abraçam / beijam e zelam e acompanham. Bonito fruto – família, sempre podemos esticar a mão.

caneca

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