segunda vida

Talvez tu não tenhas escolhido, nem queiras esta segunda vida. Nem sempre podemos escolher no sentido restrito da palavra, aliás, nem parcialmente, acho eu. A vida nos é oferecida sem escolha, quase ao acaso: ironia! Decidimos isto ou aquilo, tão pouco! A cor do vestido, o cabelo, a comida, a perda ou o ganho… E nos perguntamos: – Escolhemos o que importa? É a questão filosófica do suicida quando decide morrer, tomar a vida nas mãos no sentido mais radical possível. Com quem viver e com quem deixar de viver? Somos o produto do processo. E, somos submetidos a permanentes julgamentos internos que chamamos / nominamos / pensamos ser prazer, alegria, coragem ou sofrimento. Não é filosófico, não quer dizer nada… A soma destas coisas todas é a nossa vida, e ponto.

A segunda chance surge quando nos libertamos de um determinado processo (alguém morre, o inusitado acontece). Caímos em outro desafio, outra vida. Sem ter escolhido tu estás lá vivendo… Sem buscar. A vida é mais… Se tudo isto de casamento, filhos já foi vivido, que bom! Agora, se trata da chance de estar viva pra completar as outras tantas possibilidades que existem dentro de nós: isto é a maravilha! Descobrir o dom, teu jeito de ser / produzir, teu novo caminhar, teu sorriso. Renasceres. Que faças a diferença! Para deixares de ser par, dois em um, como diz a propaganda, mas um entre muitos. Olhar com novo olhar. Acho que perder alguém pode ser encontrar também. Eu penso no pai, na mãe, na Joana, nos meus amigos: a Sonia, o Paulo, até o Mário de Almeida Lima, Iberê Camargo e até o Flávio Tavares. Os amigos que desapareceram. Os casamentos fracassados, os empregos perdidos. Quanta lágrima pra chorar! Os filhos que não tive. As cruzes divinas. E todos os meus acertos contáveis (de numerar). Eu também fui /sou feliz, infeliz. Cada ruptura, nova chance.

Sei lá! Acho que a segunda chance pode ser até a primeira, a melhor. Um desafio. Também compreendo que aceitaste como absoluto, e bom: o caminho do casamento, da maternidade: isto é felicidade. Como a tia Joana, valente, decidiu o dela, ficar solteira e agregar-se a vida da irmã. Ou não escolheu? Quem escolheu o quê? Estamos juntos nesta aventura. As tempestades agitam a vida, no bom sentido: sacudidas, com medo, passamos a de fato respirar… E respirar é uma graça divina, nada mais do que isto. Uma graça… Foi pensando nela que mencionei a segunda chance, ou vida entre as muitas que tu já viveste.  Eu me escondo no sono, tu te manténs alerta. Isto basta. Acho que até vivenciar a grande solidão é dádiva. Coisa de Beth. Como não sei falar, escrevo. Quando mencionaste os anos de casamento, eu pensei em outros anos possíveis… Crueldade minha, não sei. Vontade de redescobrir. Curiosidade. A Parábola dos talentos que sempre me impressionou: guardar, devolver ou multiplicar? O que devemos fazer de fato com nossas vidas? Precisamos entender que as escolhas estão enfiadas em caixas… Fomos colocados dentro delas e o  limite de escolha existe no justo limite da caixa… Ou podemos rompê-las, e sair? Depois, suponho que existam mil vidas dentro de nós: escrevo mil para definir um número… Porque não somos o que aparentamos ser. O que acontece dentro da pessoa, os sentimentos, as tais emoções, não revelamos. Não por vergonha, ou qualquer outra coisa, não manifestamos porque não as reconhecemos como nossas. Não é incrível? A felicidade parece mais tangível quando se compreende as coisas sem conflitos internos de culpa. Ora, a vida não é compreensível num todo: passamos por diversos acidentes e perdas. A felicidade é a tranqüilidade diante daquilo que supomos ser o certo. Sim, apenas uma suposição, uma coisa convencionada, tanto quanto a beleza. Não existe certo ou errado, não é mesmo? A vida tem muitas vidas, com esta ou aquela pessoa ou mesmo sozinhos. A determinante pode ser uma variante. O que de fato escolheste foi um jeito de fazer e ser. Escolha? Hábito? Como vamos explicar? O que de fato deu errado? Perder pai, mãe, tia, marido, casa? Filhos? Dinheiro? O que pode ser natural ou falso? Não sei. Ninguém sabe. Hoje é diferente, então novo. Estamos sentadas num amontoado de convenções. Por elas lutamos. E não queremos solavancos na viagem. Assim como a beleza. Dizem que o belo é assim ou assado… Que traduz isto aquilo… O que é afinal a BELEZA? E qual resposta para a FELICIDADE? Como sempre a vontade de escrever é muito maior do que a vontade de falar… Acho que vou deitar um pouco. Hoje tem Doce Deleite no teatro com Gianechini… Tem Pedro no palco, e mãe coruja também. Eu mereço ser feliz! É assim? Elizabeth M.B. Mattos (13/12/2008) Porto Alegre

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