livros descartados

Do passado da rua Vitor Hugo para a avenida Independência, aos velhos arquivos e velhas correspondências.

Meu amigo: o meu caso é psicanalítico, e meio, porque não totalmente inconsciente. Assumo que estremeço. Assumo que deixo de ser natural. Assumo que conversar contigo é como voltar a sala de aula, ao meu professor. Antes do amigo, professor. Não o homem casado, com filhos, com problemas, com vida própria fora da sala de aula. Para mim é o homem que gosta de pássaros, da terra, do jardim, e dos livros, da literatura, da teoria e meu professor, e ponto. Um ser diferente. Tenho bloqueio, medo, alguma coisa esquisita em relação ao que escreves, ao que escrevo para ti, ou compartilho contigo. Bloquei o pensamento, e me assombro contigo. Não consigo estabelecer diferenças saudáveis, nem mesmo nas leituras. Até o teu francês grita superior ao meu, e sabes da minha formação. E também existe o muro, a parede a ser transposta / atravessada cada vez que te encontro num contexto social, ou com Fátima, amigos, filhos. Esquisito. Mergulhei na análise completa, que sejas então, o terapeuta. Demoro um tempão pra relaxar, pra ver, olhar, para sentir que estou a conversar, afinal, com Roberto, o velho amigo! Em tempo, pois tão jovens és! Que dificuldade! E me sinto vigiada. Esquisito isso. Um jogo estranho. Sim, como se existisse um tabuleiro, e eu precisasse jogar, inferir, negar, ir pra direita, ou pra esquerda, atacar. Defender. Recuar. Esconder-me. Como se te escrever, ou responder me levasse para um terreno minado, cheio de incertezas. Leio. Releio. Não respondo. E quando, espontaneamente escrevo, recuo. Outro mundo. Outro planeta. A vida acadêmica que eu queria / desejava pra mim? Um jeito de pensar, uma inteligência como a tua, não a minha? Não, mas não sou assim, penso. Tenho a minha própria história e trajetória, diferente, mas… Não é o algoz nem o juiz. Apenas o Roberto! Esquisito! Politicamente diferentes, e, tu és homem, e eu sou mulher, tu moras em Jacarepaguá. Curiosamente /estranhamente Jacarepaguá… Geraldo e eu procuramos casa por aí quando casamos, queríamos nós morar neste lado do Rio de Janeiro. Desastrado casamento! Sabes que ele está mal? Sou duríssima com estas questões! (Fico a recolher todos os pronomes, excessivos em português, mas tão ‘naturais’ em francês! E me sinto uma idiota!). A doença, a perda, a morte. Uma atitude rígida, infantil. Neurótica. Fiquei de luto para sempre quando perdi a mãe. Depois perdi o pai, também minha tia Joana, aumentando minha lista de lágrimas, perdi as raízes. Não sinto mais nada agora. Não somos eternos / nem para sempre…, mas te digo que estou mexida, dolorida e abatida com o estado dele, hospitalizado em Petrópolis. Pedro está a sofrer pra dentro, numa correria permanente, inútil, pesada e ansiosa, gagueja, tropeça na dor e avança. Joana com a bebê vivendo o novo. Ana Maria viaja nesta Páscoa, meio aflita e medrosa, assustada também. Talvez isso (vê-los diante da perda fundamental, já viram morrer os avós, mas o pai, a mãe!) me deixe também sensível. Meus filhos. Não queria que eles passassem por isso, vivenciassem isso. Curioso! Eu nos queria eternos para eles. Preferia engolir a coisa sozinha. Afinal, morrer ou viver não deve ser filosófico, mas real, da vida / na vida, a morte. Que loucura! Morrer é difícil! Desaparecer é como não ter vivido se não há memória. Uma ironia! Ironia fantasiosa! Enfim! Não era o Geraldo o assunto. Nem a morte. O que queria te dizer, ou o que confesso agora é minha confusão emocional diante dos teus julgamentos literários que me atropelam antes de serem proferidos. Roberto, não acreditas, mas enquanto leio, antes das letras, imagino teu julgamento. “Roberto não vai gostar!”  Teu julgamento me inibe sem existir. Não é ridículo? É louco.  Antes era o Paulo Hecker Filho, mas eu não me importava tanto, eu ia em frente, e dizia, reclamava, xingava, seguia. Por que não tenho coragem de fazer contigo o mesmo? Vou levar um zero. É isso. Ou tu vais ser complacente. Darás uma nota ótima sem que eu mereça. Sempre fui aluna relapsa. Agora estou lendo Trem Noturno para Lisboa, (começou com o pedido do oficineiro para ver o filme, que não consegui ver no cinema), fui atrás do livro, comprei, e gostei. Mas não sei fazer crônicas, e não consigo escrever, nem entender a coisa. A burrice me imobiliza, nem pra frente, nem pra trás. Então o livro começa a me aborrecer. Sem esmiuçar repetições. O truncado, o obscuro, o filosófico, mais do que o romancista…Tropeço, depois gosto, gosto do texto de Peter Bieri. O filósofo com o pseudônimo de Pascal Mercier, autor do romance com mais de 2,5 milhões de exemplares vendidos… Como O mundo de Sofia de Josten Gaarder.  Roberto, nem ia te contar desta aventura. Habitas o planeta Terra, não sei bem o nome do meu. Sofro influências, e desanimo, tu segues sempre. És metódico, sou desorganizada. És absolutamente claro, objetivo mesmo quando te propões subjetivo, sou confusa. Um sentimento de inferioridade acentuado. É isso? Não tendo objetivamente. Confuso. Tudo que preciso, ou imagino necessitar se refere a tua AVALIAÇÃO, a Beth aluna, (discípulo seria demais), se apresenta, um pouco sob o encantamento, outro tanto, timidez, mas certamente com inferioridade. Tua posição em relação a vida, escolha, profissão, e até amor parecem seguros. E eu tropeçando… Tudo para te dizer que comprei um volume de Aureliano de Figueiredo Pinto, porque ainda não o conhecia. (Acontece comigo, os que leste eram meus, dos que Joana ia descartar, não foi? Acabaram na tua estante, e agora, depois de teres mencionado, compro outros, vai entender!) Quanto ao mineiro, não consegui. Quanto ao Tabajara Ruas, nem lembro mais qual livro, não sei, não é um clássico. Estes livros descartados, com dedicatória e tudo, assombram as estantes dos meus filhos que os receberam, assim, aos montes sem terem escolhido. A ideia de os guardar, e de que um dia lessem os que não li, ou redescobrissem os que gostei, pura fantasia minha. Joana ia se desfazer e o fez, lembras? Apenas se desfazer. Esta partilha aleatória e necessária, fiz antecipada, antes de me mudar pra casa da minha irmã Tânia. Eu que zelava por grande parte da biblioteca da casa da Vitor Hugo. Livros encadernados pelo pai, pela mãe… Nome de família na lombada.  Outros doei também para a biblioteca pública de Cambará do Sul! Quem deve ter aberto um livro? As traças. Literatura, jurídicos, e livros em francês! Esta coisa da perda! A biblioteca inteira do Paulo Hecker Filho que ocupava já um apartamento foi doada para Paulo Betancour. Este vendeu aos sebos. Contam que Paulo fez consciente para ajudar o amigo endividado. Pode-se vender livros assim, aos magotes. Graças! Tu és feliz nestes encontros! E guardas os teus livros. Como te agradeço! Por todos os que amam livros. Também és agraciado pelo prazeroso destas leituras, escolhidas ao acaso. Deste jeito. E sempre, eu vou querer te seguir. E leio tão pouco! Um beijo e bastante saudade. Desculpa a carta derramada.

Querida Beth: Um dia desses, à noite, concluída a leitura de dois romances russos recém-comprados, procurei algo na estante para ler, e fiquei entre dois livros que você me deu, daqueles que andou descartando: um do Tabajara Ruas, não me lembro o título, aliás com dedicatória para você; e o outro de Aureliano de Figueiredo Pinto, autor de que nunca tinha ouvido falar. Acabei escolhendo o segundo, e esperava uma narrativa regionalista – o que em geral me agrada – de qualidade razoável. No entanto, iniciada a leitura, que logo concluí (agora de manhã), prontamente me dei conta de que se tratava de texto primoroso, impressão inicial que só fez consolidar-se ao longo da leitura. Que boa surpresa, pois é uma obra-prima, e, acho, completamente desconhecida, acredito que mesmo no RS. Com isso, este ano já tive a felicidade de descobrir dois grandes escritores inteiramente esquecidos: o mineiro Galeão Coutinho, que assina o belíssimo Vovô Morungaba, e o gaúcho Aureliano de Figueiredo Pinto. Acho que nem vou ler logo o Tabajara Ruas, pois pode ser que minha expectativa em relação ao regionalismo gaúcho tenha crescido demais com a leitura do Aureliano. Beijos e bom fim de semana. Roberto. (Roberto Acízelo Quelha de Souza)

Alter ego ou alterego (do latim alter = outro egus = eu) pode ser entendido literalmente como outro eu, outra personalidade de uma mesma pessoa. Para a psicanálise, o alter ego é um outro eu inconsciente.

casa 2.JPGrua vitor hugo 3.JPGmuro e casa 1.JPG

 

 

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