anêmonas / “Esboço de um Passado”

Se vou explicar ou pensar em memória ou lembrança, ou passado eu me encontro/estou/imagino anêmonas em ramos pequenos. Coloridas, frágeis e sem perfume: amarelas roxas vermelhas azuis. Na pequena leiteira inglesa, ou naquele bojudo vaso miniatura: efêmera, preciosa reminiscencia nas coloridas anêmonas.

É de flores vermelhas e roxas num fundo preto – o vestido de minha mãe: ela estava sentada num trem ou num ônibus, e eu estava no seu colo. Eu via, portanto, as flores do vestido que ela estava usando bem de perto; e ainda vejo o roxo, o vermelho e o azul, creio, contra  o fundo preto; acho que eram anêmonas. Talvez estivéssemos indo para St. Ives; mais provavelmente – pois, pela luz, devia ser noite -,estávamos voltando para Londres. Mas é mais conveniente, sob o ponto de vista artístico, supor que estávamos indo para ST. Ives, pois isso conduzirá minha outra recordação, e na verdade é a mais importante de todas as minhas recordações.” (p.76)

Foi neste parágrafo que tropecei e me veio a lembrança das flores. Já tínhamos nos mudado para a rua André Poente. Tânia e Renato já estavam vivendo em Paris. E a mãe tinha quebrado o braço. Suzana se ocupava da limpeza, e eu das refeições, o pai se orgulhava porque tudo funcionava com alegria.

Uma das esquisitices deste meu envelhecer: tropeçar em autoras / autores (os preferidos, é claro) que trazem de volta minhas lembranças espalhadas no prazer de ler/escrever/pensar e respirar. A leitura tem mágica, e a escrita  poder no picadeiro iluminado. Gosto.

Se a vida possui uma base na qual se apóia, se é uma vasilha que se enche, se enche e se enche – então minha vasilha sem dúvida alguma está  boiando sobre esta recordação. A de estar deitada, semi-acordada, semi-adormecida, na cama de nosso quarto em St Ives.” (p.76) Virgínia Woolf Momentos de Vida – Um mergulho no passado e na emoção

Se a vida tem memória, posso voltar até a casa da rua Vitor Hugo 229, em Petrópolis. A Magda, Ana Maria e Nádia logo estarão comigo. A correr e a subir nos muros, ou arrastar as bonecas, depois largar tudo e pegar as bicicletas, mesmo sem freios. Os guris aparecem e vamos para o clube. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

P.S. Bonecas se misturam nas correrias. Gostava delas tanto quanto de dançar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s