escorregando…

Eu tinha um estoque de alegria, então eu resolvia uma coisa e depois outra, ia até o supermercado e comprava uma coca-cola, o pão, o necessário. Queijo, e também um vinho (parece a coisa certa a ser feita) para almoço festivo. O meu festivo chega com as flores da feira livre, com as caminhadas matutinas, ou com o perfume da comida, uma carta atravessando o tempo…Verdade, as cartas chegavam, as conversas se faziam e a tal alegria se acomodava por perto. Eu tinha um estoque, não tenho mais. Terminou. Estou agarrada na última porção de alegria. E apavorada, assustada com a finitude. O que vai acontecer amanhã quando o sono não me visitar, e as vozes acalmadas  silenciarem… Sim, este danado desconhecido me assusta. E os livros já se escondem, as músicas sairam de perto, e o gosto da risada desapareceu. Ainda lavo as roupa, passo os lençóis, limpo aqui e ali, e  assim mesmo,  quanta poeira! Abro as janelas, entra o sol, quanto sol! Quanto calor! Eu quero o muito, o tanto, o pouco, o excesso. Estou descontente. Estou atacada de uma tristeza irritada. E tudo o que for dito, ou aplacado, ou explicado vira monstro e desencontro. E as pessoas me parecem estranhas, radicais, agressivas, perdidas ou achadas, estranhas. E sou eu que estou assim azeda, me perdoa Fernando. Fizeste o tudo e eu sigo azeda.  Perdoa Pedro, Ana e Luiza, explicam e aplacam, e eu vocifero. A Joana transborda porque nela o contente tem fonte, tem caminho certo. No mais estou mesmo azeda, azeda e esquisita. Não me digam que isso está certo ou aquilo errado, não consigo pensar. Ou que o caminho seria este ou deve ser aquele. Claro! Teremos em outubro eleições e depois outras eleições e depois outras escolhas, e depois vai ficar igual como sempre foi, ou diferente. Agora, Deus Meu! Não consigo entender nada. Qual era mesmo o bom filme? Cinemas nem pensar! Tudo na caixa dita televisão. O que era tão manso ficou feroz e violento. É porque envelheço, o certo é porque envelheço e não tenho vontade de inventar, nem de fazer, nem de compreender, nem de esquecer. Enlouqueço. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

P.S.

Luiza Silla pensei em rasgar tudo por dentro, e dizer como sinto, sem pejo sem censura para medirmos as duas as minhas loucuras. E depois, já recolho, sinto outro medo, melhor silenciar, e tua carta não chegou, teu mundo não veio. Bebi o vinho sozinha, e os camarões estavam fantásticos, e a quarentena não ajuda nada, e as pessoas morrem, não sei se me consolo. As pessoas estão desaparecendo. Descobre o que aconteceu com o Tavares. Dá o recado que gosto dele e que se cuida. Fala com ele. Para que serve a rede? Ana Maria comprou uma máscara para que eu possas sair, então vou até a esquina, estupida e vazia esquina, estupida e vazia pessoa. Nada para dizer / acrescentar / Vamos contar imaginar uma história, Vamos publicar minha amiga, Ufa! Hoje o dia terminou. Espero tua carta, teu estoque de alegria. Chega e rápido, minha amiga,

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