certeza amarrada

LINDAAAAAAAA MÂE

Certezas estão presas em tantas pequenas histórias! Poderia não importar arejar cada uma delas, mas sinto tua incerteza pesando em cima de pequenas banalidades estufadas, por isso eu te conto as histórias dela. Não são tuas, são emprestadas. E as histórias precisam ser ditas / contadas para clarear, e te soltar, soberana no teu reinado. Fazer justiça. Não pode ser apenas acaso nem tanta glória sobreviver e ser, finalmente, a velha senhora.

Estes dias pensei minha mãe. Desenhei cada passo. Estás a me dizer que estou misturada em tanta saudade! Talvez, não sei. É a visão desta casa, desta mãe, destes feitos da vida que ela atravessou com coragem, e das palavras, das conversas, daquele contar lento, constante, abusivo eu diria, hoje compreendo / sei o precioso de cada gesto / cada som. Que vocês possam tocá-la, como eu, é isso. Um presente. Penso nas injustiças sofridas: pesadas e ciumentas. E a vida terminou tão cedo! Estou a prolongar anos mais do que os dela, tempos pesados estes, rebeldes, inquietos e agressivos! Quando me proponho a pintar seu rosto, voltar gestos, entender/ escutar/compreender a voz, sinto o quanto sou impotente. Quero te libertar! (Impressionante o efeito da música, e desta voz que desce quando escrevo. Chamados precisam ser respondidos. E não se pode escorregar em mimos incertos: a vida tem gosto de intimidade, aconchego interno, a pessoa com ela mesma. Será que posso beber um whisky nesta hora da manhã?! É o inverno que me abraça. Afinal, porque não confessar, eu gosto, gosto dos dias invernosos que são mesmo quase o tempo todo amanhecer e entardecer.) Como vou te descrever a luz? A minha mãe era luz o dia inteiro, ela nos fez assim iluminadas para viver. Costurou vestidos, inventou amigos, as melhores escolas. O espaço aberto para as meninas. Crescemos como abóboras, tão depressa! E logo ela entregou a horta, o jardim, a floresta, a magia inteira para que fôssemos nós e não ela mais… Era tão jovem e logo foi avó, era tão jovem e a família ocupou todo o espaço. Não. Não é natural quando se tem muitos talentos, tanta inteligência, tanto charme e vigor. Um exercício difícil este de abrir espaço e entregar às filhas todo o espetáculo. E ficar no camarim. Chapéus, vestidos de noite, velas, e porcelanas foram presentes para enfeitar a nossas vidas. Ficou, na lembrança o café. O cigarro (ela fumava). Lareiras: o fogo nos nós de pinho. Os cães. A casa. E a biblioteca. O pai silencioso, ela vibrante. Ele foi amado docemente por todos os nossos amigos, ela parecia mais espinhenta, mais uma rosa difícil de colher. Atenta a se defender. Dou voltas e voltas. Não escrevo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

Mãe no bar ADORO ESTA FOTO

 

 

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