da corrente

Eu me atiro sem pensar e não espero a volta: vou a me debater, incansável, porque o dia esplendoroso atravessa meu corpo. Quero mais, muito mais, mas não me defino se vou ou fico, ou espero. Talvez eu precise correr porque a vida galopa!

Sempre que em sonhos vejo os mortos, eles aparecem silenciosos, incomodados, estranhamente deprimidos, muito diferentes das pessoas brilhantes e queridas que eram. Eu os vejo, sem nenhuma perplexidade, em ambiantes que nunca visitaram durante sua existência terrena, na casa de algum amigo meu que nunca conheceram. Sentam -se afastados, a testa franzina voltada para o chão, como se suas mortes fossem uma mancha escura, um vergonhoso segredo de família. Certamente não é nesses momentos – não em sonhos -, mas quando se está plenamente acordado, em momentos de robusta alegria e realização, no patamar mais alto da consciência, que a mortalidade tem uma chance de espiar além de seus próprios limites, do mastro, do passado e da torre do castelo. Embora não se possa ver muita coisa através da névoa, existe de alguma forma a sensação de plenitude de que se está olhando na direção certa.” (p.49)

Não apenas em sonhos  vemos os mortos, aparecem ruidosos na memória a preencher espaços, cadeiras vazias, e se encostam nas paredes a nos espiar e surpreender…, – porque estão vivos na nossa memória. E também aqueles amados que um dia deixamos para trás num arrufo de mal humor ou capricho e depois orgulho. E nos perdemos deles. Como posso explicar que um casamento acabou, o outro também e o FT que veio me deixar menina e socorrer e amar eu também abandonei. E nesta sede de querer o completo e o perfeito, ninguém. Toda a história de amor, ou de amizade precisa de perseverança. Eu volto pra casa, estupidamente, encolhida com se pudesse entrar na concha, apegada as fitas e  aos cristais, deslumbrada com a saudade, esquecida do hoje. Que enorme tolice! Que mistério o encontro com Gustavo, numa floração vibrante que antecede a morte. A despedida do Geraldo, a morte da Sônia, os livros perdidos, a mãe e o pai presentes, a biblioteca que conversa, o meu jeito distraível de levar a vida. Os vivos. E agarrada aos setenta anos silenciosos num tempo de pandemia (provação) a certeza que existe “a sensação de plenitude de que se está olhando na direção certa.

Das aulas de pintura e desenho que desejo ardente, o olhar deslumbrado: “Eu adorava o jeito hábil com que ele molhava o pincel em múltiplas cores com o acompanhamento do rápido bater produzido pelos recipientes de esmalte de onde eram recolhidos os ricos vermelhos e amarelos que o pincel ondulava; e tendo assim recolhido seu mel, parava de mexer, de bater, e com dois ou três toques de sua ponta luxuriante, encharcava o papel ‘Vatmanski’ com uma uniforme camada de céu laranja, sobre o qual, quando o céu ainda estava úmido, uma longa nuvem negro-púrpura era aplicada.”(p.87-88)

Leio o devaneio da tela, deste aprendizado, desta loucura das cores paralisa a beleza da descrição e o luxo: Vladimir Nobokov transporta na sua autobiografia – Fala, Memória.

[…] um jeito particularmente silencioso, como se temesse me assustar daquele meu estupor versejador. Ele me fazia reproduzir de memória, o mais detalhadamente possível, objetos que eu de certo havia visto milhares de vezes sem visualizá – los de fato: um poste de luz, uma caixa de correio, o desenho de tulipa do vitral de nossa porta de entrada. Ele tentava me ensinar a encontrar as coordenações geométricas entre os galhos esguios de uma árvore sem folhas da rua […] (p.87)

Largo o livro com displicente cuidado. Dou dois passos em direção a mim mesma a procurar o cuidado de apreender. A se perder, eu nunca me importei com o detalhe, fui casual e descuidada. Por que não me perdoo? Lembro do acidente da mãe – ela ficou entre morrer e viver, e morrer era uma dor constante, mas sobreviver, a coragem… E tive o carinho atento com ela, ajudei a recuperação com massagens e paciência. Recuperou parte do movimento do braço. Ela voltou para a vida com seu talento ardente mas, aos poucos, enterrava e desviava os olhos. Talvez, como ela eu penso que nada mais pode ser feito. E  logo eu fui para o internato num descuido de matrícula, num acaso, para as Cônegas.  Vida e memória se encaixam nas páginas lidas.  Os livros escondem outros/ mas os mesmos pedaços / versões, as que não conhecemos, e também nos pertencem. Curiosas autobiografias. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres

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