será que eu posso?

Para Elizabeth Barrett – prima querida

Será que eu posso ir e voltar, desistir, largar, e recomeçar de um jeito diferente, mesmo sabendo (inconscientemente sabendo) que não vou chegar, entrarei no desvio atrás da certeza de pertencer. Terei autorização de carregar este azul riscado de bastante amarelo, já a ficar tão verde! Será tanto, e tanto verde, vejo marrom, e tantas riscas pretas… Será que eu posso ir e voltar? Aceitar e desistir. Conversar e não dizer nada, contrariar, apenas polemizar, irritar. Tomar um banho demorado de banheira, morno, quase quente, talvez muito quente. Água perfumada. Não num hotel cansado, mas naquele perfeito que vai consumir o dinheiro de um mês, dois meses, ou três num único dia. Café da manhã colorido com as frutas da época: cítricas. Bananas cortadas com mel e aveia. Omelete, suco de uvas, de pitangas. E a cortesia de correr as cortinas pro mar de Ipanema. Sim. Um hotel na cidade perfeita, porque esta conheço. Não Itália, nem França. Nem na Califórnia, ou México..Pode ser Porto Alegre, sei lá…, poderia ser em casa. Será que posso ter um alguém invisível a limpar, a cozinhar, e perfumar os armários, empilhar os lençóis e deixar os vidros atravessados de luz, e perfumados? A carne mal passada, as saladas verdes frescas: tomates e passas, ameixas secas. Couve-flor gratinada. Depois café e doces portugueses: ovos nevados, avos moles, fios de ovos, o licor. Será que posso levar a tarde colorida e morna comigo por tantas horas? Ou preciso mesmo entardecer azeda, enjoada, cansada, assustada? Estes mundos presenteados com tantas, tantas pessoas solitárias. Quero bater e entrar. Quero ser abraçada, beijada e apreender a escutar (não tenho este ingrediente tão necessário!) Aprender a ficar quieta, imóvel, tão absurdamente tranquila que adormecerei… Universo privado explica Huxley, incomunicável. Tolstoi grita, julga. Tourguéniev, para distrair suas crianças, dança o cancan, explica André Maurois: como eles podem possuem/tem universos tão diferentes!E ser geniais cada um a sua maneira? Como eu posso transitar de um lado para outro sem me contaminar, ou envolver, sem mudar, mas a me metamorfosear, como Kafka, ou explicar a peste como Camus. Como posso viver sem a minha banheira, sem jardim, restrita as camisolas, as meias de lã, na ausência de amor. Bebo um copo de leite com Nescau, quente. Mordisco umas bolachas com manteiga. Eu me excedo. Penso nos morangos maduros, nos pêssegos e nos limões sicilianos. No cheiro de terra molhada, na chuva. Compro um carro com teto solar para ver as estrelas, imagino a viagem que não farei, o tempo que ficarei rodando querendo chegar, sem vontade de sair. Puft! Uauuuu! Esquecer o carro, nem sei se ainda sei dirigir, e gostaria de ousar passear pelo eu comigo. Por quê? Para flertar, ser eu, entrar e sair. Dormir um dia e caminhar outros dois num lugar deserto, mas seguro. Arriscar e rir fora de hora. Falar holandês, inglês, japonês e mandarim… A surpreender a voz /o som com sotaque francês. Entrar no castelo certo, e encontrar o príncipe certo: ocupado a trabalhar atabalhoado e um pouco triste, mas vai se surpreender…, e vai me reconhecer. E nos daremos as mãos. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres

Torres ou Porto Alegre, ou Rio Pardo; quem sabe Santa Crus do Sul? Ou São Paulo? Não, não. Certamente, o Rio de Janeiro, subindo a serra pela velha estrada até Petrópolis. E depois, cuidando da horta, das galinhas, dos sonhos, e lendo, num exercício cuidado para apreender. E gozar a cada palavra nova. Reler André Maurois – Mes Songes Que Voici – Editions Bernard Gasset

Tantost je resve, tantost je dicte en me promenant mes songes que voicy. Michel de Montaigne

Pour Montaigne, je proposerais :
Às vezes eu sonho, às vezes eu dito, enquanto perambulo, meus sonhos eis aqui.

La dificulte est dans “je me promène” employé dans um sens particulier à Montaigne. C’est “promener as pensée” comme em marchant, ici pas em marchant réellement, mais au gré des bifurcations qui se présentent. Ça tient de la rêverie, de la rêverie philosophique. Je pense au portugais ‘” devaneios” comme  divagations, mais je crois qu’il y a um peu l’idée d’être perdu, et Montaigne “se promenant” ne se perd pas. Et c’est plus actif que “devaneio” au singulier. Mais mon dictionnaire pour le verbe “devanear” me donne “se fanner”, “paniquer”, donc ici “devaneio” ne convient pas. Alors je m’arrête, grâce à son sens em latin, à “perambulo” avec l’idée de “ visiter des lieux successivement, traverser un lieu vers un autre lieu.” J. M. Grassin

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