Enamorar – se

Tens razão, precisava deste encontro com as francesas. Foram três dias intensos: exercitei conhecimentos de língua, pensei francês. Discuti a pesquisa, alinhavei novos aspectos pertinentes: psicanálise, vida interior. Senti o sol. Caminhei na areia, mergulhei no mar. Deixar – se ficar para ver as pessoas. Bebericar café, comer doces, pensar sorvetes e rir / sorrir. Vi e reconheci amigos; falei com quem não falava faz muito tempo /tanto tempo! Livre e feliz. Por quê? Porque estava/eu me sentia reconhecida, integrada, dona de mim mesma a fazer aquilo que sou eu. Como é importante estar no teu próprio universo, compreender necessidades, e entender o que está por dentro, O meu conceito. Definitivamente, preciso concluir o Doutorado. As portas abrirão para novas oportunidades. Nunca mais amarrada, mas pronta, independente. Intelectualmente livre, fisicamente solta, completa. Quero encontrar a minha forma de escrever e quero te amar. Continuar enamorada. Viver a paixão como uma transgressão exemplar, de direito, como valor. A nossa paixão erótico-sexual. Pensar amor. E o prazer surge e se afirma como direito, sem culpa. Estar enamorada, desafiar instituições e buscar outro valor. A natureza do amor reside nisso, em não ser apenas capricho pessoal, mas movimento portador de projetos. Estou acostumada a medir cada coisa pelo padrão do tempo físico do relógio (com lente de aumento). Esqueço que na sexualidade extraordinária do amor, o tempo é diferente. A minha saudade não conta os dias, mas se agarra na lembrança do teu corpo, no suor, no cheiro, no desejo. Para nós dois, agora, uma noite juntos corresponde a mil ou dez mil anos. Neste estado tem-se, exatamente, a eternização do presente. O impulso vital à procura de novos e diferentes caminhos. A sexualidade se transforma, explora a fronteira do impossível. Horizonte da imaginação. Da inteligência à imaginação, ao ardor como explorou Vladimir Nabokov, direto à paixão: desejo de te beijar inteiro. Ter – te outra vez, deixar – me tocar, apertar. Beijo queima o corpo.  A fusão da paixão subverte, transforma, rompe laços anteriores. A força revolucionária de Eros restrita a duas pessoas. Assim, quando te penso eu sinto cheiros que não sentia antes, percebo cores e luzes que não via habitualmente. Ainda quero assistir o filme pictórico contigo. Nossa vida intelectual se amplia, percebo relações anteriormente inexistentes e obscuras.  Um gesto, um olhar, um movimento, percebo teu passado, infância. Sorrindo neste momento: eu te vejo arrumas as roupas para a viagem, colocar na mala os sentimentos para usares comigo. Posso compreender teus sentimentos, os nossos. Posso sangrar, mas sigo no desejo. Intuímos, tu e eu, o sincero e o falso, nos tornamos sinceros. Eu te espero. Tu me esperas. Estamos prontos, os dois. Ah! Meu querido! Desejo de estar no corpo do outro, um viver e ser vivido, fusão de corpos que se prolonga como ternura pela fraqueza, ingenuidade, pelos defeitos e imperfeições, assim amamos. Posso aceitar as desculpas, o pedido de perdão… Eu agora estou apaixonada. Identifico as mãos, a forma do rosto, a massa quadrada do teu corpo, a voz, o teu nariz, a boca, o cheiro. Os sinais. És tu, somos nós. Perdoa se te escrevo num mar tumultuado de contradições de perda e encontro. De saudade. A espera de uma hora se converte na espera de anos, de séculos. A nostalgia do instante da felicidade… Basta uma breve separação para ter certeza de que és inconfundível. Eu te quero do mesmo jeito que tu me queres, sem relógio, existe apenas a urgência do abraço, do beijo. Não há palavra, mas toque. Chegar indo embora… Então, volto a te imaginar. Divido casa, comida. Também o rádio, o futebol, a música e o meu silêncio. Estamos, os dois, juntos, lado à lado, no mesmo espaço, no mesmo mundo, diferentes, juntos, nós. Quando o fruto aparece, a flor desaparece. Nós nos propomos coisas irrealizáveis. Posso pedir felicidade, mas felicidade não é uma coisa. Posso perder minha medida. Posso comer bem se assim te agrada, mas se estou/sou apenas eu, não me importo. Para te encontrar e ficar contigo, estou disposta às viagens cansativas: dormirei nos teus braços tão logo chegue. Não comer, não dormir não importa, agora. Nada me cansa porque estou feliz. Talvez no dia a dia eu não suportasse viver assim, mas agora, agora respiro. É essencial eu te encontrar. Por isso, se me chamares por/ao telefone, tão logo leias as minhas cartas, estarei /irei correndo ao teu encontro. Não há contabilidade possível. Confissão e absolvição. Eu te amo nesta corrente. A exploração do possível, o esforço de chegar… O perfeito é estar no teu abraço, quieta. Elizabeth / Eliza / Liza M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres

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