O que eu amava

Segunda-feira silenciosa e morna. Ondulam, visivelmente, temperatura e humores. Remexo nas caixas, nas fotos. Procuro pinhas de duas cores e tamanhos diferentes, e outras coisas mais esquisitas, um coelho. Coisas indefinidas, escondidas. Procuro o sentimento fantasia. Esperança de ser/ter tempo. Transcrevo sonho e vontade. Pacote selado dias especiais, festejos. Cotidiano interiorano. Minhas caixas. A saudade não é visível. Não guardei versos nem prosa sobre lareira medieval de pedras rosadas e talhadas. Não lembro do vento verde de mato horizonte, nem das minhas árvores floridas entre jasmins. Esqueço a escada. Corro patamares da casa da Vitor Hugo. Estou em Petrópolis. Escuto o piano, vejo as teclas. Os dois cães pretos espiam esparramados de preguiça na vigília da manhã. Estou lá, não mais aqui querendo sol na babilônia dos meus vasos aquecidos / esquecidos depois da chuva.  Pinhas diz o poeta, pensa saudade. Pinhas catadas, viajadas, esparramadas… Segredos pequenos, fechados em buil zipper: segredos presos nos sacos com zipper, clipes, grampos, sacos feitos na medida: vida empacotada que andou do campo pro mar, do mar pra cidade, pra cidade pras caixas ventiladas por venezianas, espremidas, construídas.

Volto ao livro da Siri Hustvedt O que eu amava, detenho-me na capa que traz uma tela Jean-Siméon Chardin (1699-1799): estou nos museus que nunca estive. Estudo arte, escrevo, sofro, construo instalações: caixas e portas, pinhas e livros. Movimento as dores, as cores, e as pessoas, toco em feridas abertas. Fecho a porta do meu quarto, o silêncio não vem. O silêncio, eu perdi…

Não escrevo, penosamente transcrevo:  “Eu não quero que as palavras cheguem nuas, como chegam pelo computador. Quero que cheguem cobertas por um envelope que você vai ter que rasgar para poder tirá-las de lá. Quero que exista um tempo de espera – um intervalo entre o momento da escrita e o momento da leitura. Quero que a gente tenha cuidado com o que diz um para o outro. Quero que os quilômetros que nos separam sejam longos, reais. Essa vai ser a nossa lei – vamos escrever sobre o nosso dia-a-dia e sobre a nossa dor com muito, muito cuidado. Nas cartas, eu apenas conto a você sobre o meu desespero, não é o desespero em si que vai à carta. E eu estou enlouquecida. As cartas não podem berrar. Os telefones sim. […] Toda a correspondência é crivada de perfurações invisíveis, pequenos buracos deixados pelo que não foi escrito, mas foi pensado.” (p.213-214) Siri Hustvedt

Agora, meu amigo amado, escrevo ansiosa, fora do palco. É preciso secar o pânico, a tristeza do desânimo, a síndrome escolhida. Reler tuas cartas: os rótulos e padrões são destruidores. A beleza não termina, muda de forma. […] Tuas palavras são de quem ama […], uma explosão de desejo, […] a única trilha que mereces. É a alavanca de mudar o mundo […] mundano jeito de viver. Louca / distraída / apaixonada / perdida ou achada, eu te quero. Todos os dias o medo terrível que abras a porta. Tens a chave. Abras a porta numa hora desavisada em que a camisola não esteja perfumada, que o tapete possa estar tomado de álbuns de fotografia, caixas e sapatos, e a mesa entulhada, e a pia cheia de louça e copos, as camas desfeitas, a música alta demais… E eu grite de susto, não do toque. Depois enlouqueço no teu beijo. Quantos beijos necessários, como posso recolher os perdidos? Acabei de reler tua carta. Um encontro físico agora, não precisamos, enquanto isso… Todo o ‘fazer bem’ substitui qualquer dúvida. Faz bem! Não pensar! Fazer! Ler, ouvir, fazer silêncio – menos gritar – nunca discutir – são antídotos que arrepiam deliciosamente. Aproveita! Não questiona! A adolescência empurra para a maturidade, como é bom sentir os puxões rumo a adolescência

Tudo lento como se estivesse curvada, às vezes acocorada, usando meus bifocais a catar ensimesmada tuas palavras, teu sentir, teus arrepios. A carta aberta com cuidado por ti, com certeza rindo de mim. Saltará uma boneca de papel com as roupas, um desejo, um beijo materializado. Coisas esquisitas, no fundo uma perdida manhã de carnaval, ou uma segunda-feira de sol. A chuva empacotei também. Amigo-conhecido, desconhecido: fecho a caixa, posto saudade indefinida, queimo pinhas no fogo aceso da lareira, bebo o vinho. Como te amava, como me amaste eu vou te amar…Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres

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