os cortes

(7:55) 2 de maio de 2021 – Torres

Natural incerteza, tantos anos! Fechar a porta ou decidir o impossível. Quando as relações terminam a lucidez importa. É preciso determinar, colocar uma trava no sentimento contraditório. Apagar a luz, e livre de si mesma, enfrentar o novo tateando no escuro…

Et nous sommes encore tout mêlés l’un à l’autre,

Elle à demi vivante et moi mort à demi…” Musset

Uma máscara de fadiga parece escorregar do seu rosto, e, os traços adquirem uma expressão simples que a torna parecida com seus retratos de criança. Como a criança que foi, enrodilhada ao fundo da poltrona, olha o fogo e sente o inverno como se pudesse, um dia florir primavera, redescobrir sentimentos, ou interromper a corrente de dor, desalento, provação… entende.

“existem inúmeras formas de ter e dar prazer”

Releio a carta, o café esfria. Quero entrar na brincadeira, usar as cores, estar no mapa, desenhar os caminhos e colocar pedrinhas, lago, árvores e uma casinha com janelas pequenas que olham de longe a chegada do visitante: o brinquedo. Sou o teu brinquedo, és as minhas descobertas de menina velha: viva.

Manter uma chama adolescente e seus impulsos é uma ‘tarja preta’ sem efeitos colaterais. Não abandona. Nem despreza.”

Vou fazer as torradas, abro a geladeira a procurar manteiga. Sinto já o prazer deste acarinhado sentimento. Não sei se me diz respeito, se ele divaga pensando na fantasia de um encontrando desajeitado, assim mesmo um encontro de apaixonados amantes…, o gosto de chocolate, este sono ciranda me embala. E o beijo.

No isolamento – distância, dificuldades “

– então, imaginar faz sentido. Eu sigo a ler tuas cartas, tuas observações críticas, certeiras:

Por enquanto me senti no Le Roy Merlin, nas prateleiras dos organizadores usados para colocar o que quiserem em suposta ordem. Não faria isto, jamais. Com amores, com louças sim. Nunca contei amores. Esposas, ou amantes. Não saberia contar e seria injusto com qualquer uma delas. Foram, são e serão sempre… enquanto dure (poetinha…, citando Vinícius de Morais)”

Não posso te repetir, nem dizer nada. Ainda dormes. Matutina sou eu, inquieta. Estás no teu elemento / no teu prazer, fora das angustias (de repente escapa a palavra, minha memória !?, não de amores, nem de ausência chorada, a memória do dia – onde estão meu óculos, qual é mesmo o nome daquela flor, quem escreveu isso? Qual cidade? Que nome tinha o professor de Latim? Miguel) Coloquei água para esquentar, vou passar outro café. Descascar uma laranja. Amanhã quero figos, preciso comprar legumes. Gosto quando o frio entra indiscreto e me arrepia. E mencionas cumplicidade e renúncia. Eu penso. Em que momento renunciamos? Conscientes? Ou apenas viramos as costas… Eu me aqueço nas tuas palavras, com as mãos lambuzadas releio:

“…,idade não transforma desejável em indesejável. O que transforma é a vontade. Atitude de não ser desejável. […] tenho que me manter leve, eu me emociono”,

Tens a sedução costurada no coração, nas tuas mãos, ao poder, e o caminho de respirar e fazer acontecer te encoraja, penso nos mimos, nas lágrimas e nos armas (lembras do filme? Viste O perfume?) Releio:

Beth…sonoridade. […] Somos, no espelho, a imagem de nosso presente. Devemos ficar felizes por estarmos ali. Se algo não agrada, aqui ou ali, retoca ou ajusta no possível. Nunca seremos o que fomos, apenas seremos no espelho de nossas memórias. Somos personagens do passado, coadjuvantes lá atrás, papeis principais hoje, mas personificados por esta nuvem do tempo. Curte…, sem ansiedade. Senão tem gosto ruim. Vive… como pode e surge. Sem angústia ou lamento de perdas. A vida reserva momentos inesquecíveis aos aventureiros. A monotonia aos que não ousam. Inteligência em dividir prazer de ansiedade é a chave para que o momento seja o momento pleno. Pensa e relaxa e usufrui como é!”

Pensei no bilhete que te escrevi às pressas para não te perder, guardar um pouco mais enquanto respiro o teu cheiro. ‘estou aqui agarrada no momento de gostar de ti, tanto e tanto!’. Sou lenta, tão lenta para entender / sentir / ou estar no momento, no agora, no livro certo… Já me conheces, a pressa de agarrar, o cuidado, a incerteza e o hábito de pensar que depois, amanhã, na outra semana, ou sempre estarás ao meu lado… Disposto a ouvir, a contar, e também, disposto a me abraçar, calar o desatino e embalar o presente com as fitas que trouxeste na mala, e os perfumes… A tua chegada tem gosto de orgia acesa sem máscara, sem cuidado, sem limite.

Louca e consciente eu te escrevi: […] enquanto temos tesão, enquanto andamos nus pela sala pelo quarto, enquanto nos deixamos ficar uma tarde inteira embaixo dos lençóis, enquanto brincamos e fantasiados de desejo assistimos o prazer, o tempo passa… Enquanto nos falamos somos / estamos jovens, vivos e felizes. Obrigada / obrigada / obrigada. O que importa? Não precisamos de palavras…, o silêncio prolonga. Te cuida poque quero te amar amanhã, e depois de amanhã, e passando o mês de maio, ainda em junho. Um beijo, dois, ou três, ou um valendo quatro, melhor, um abraço suado. Eu te mandarei flores, coloca num jarro, no canto da bancada, na tua cozinha, são poucas, misturei alecrim… E, agora, vamos assistir ao futebol e torcer… Elizabeth M.B. Mattos – meio de 2021 – Torres ( eu já escrevi isso) Desambientação, curiosidade, atração. A gente nunca se arrepende de não mentir. WWJMCLJCAkYZ

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