abrir a porta

22 de maio de 2021 sábado – Depois de boa chuva, dia bonito. Cinza o céu, mas brilhante. O frio saiu devagar. Dormi bastante. Um pouco aqui no quarto grande, outro pouco na cama do quarto pequeno, aperto. Angústia diminuí. O medo me espreita. Conflito entre ser e não ser eu mesma: esquisito o que eu sinto. Deves estar atento a tua rotina, também a fazer isso e aquilo. Fico a imaginar tua vida. Os cães, o verde, a granja, o gramado, as mãos. Exóticos voadores, e tu, claro, tua vida… Por que gostaria de sempre te encontrar aqui: eu me sentiria / eu me sinto a salvo em casa. Transgredir dói /surpreende. Qual o sentido, como explicar. Exasperas. Quieta, eu te espreito. Lembro do carro estacionado. Do noivado desfeito. Da professora. Dos estudos escabelados. Dos voos milionários, de ousar…, e depois, inúmeras recuadas. Dos não vou, não posso, não… Por que a casa protege, nem sei exatamente o quanto. O quintal, os espinhos das buganvílias. E o certo é medo. O neutro? Lugar neutro. Precisamos ir tão longe para beber outro café? Eu te convido para almoçar. Jogo uma toalha e peço uma comida do bom restaurante. Os vinhos já temos. Podemos logo sentar com cerimônia, mesa posta. Compro flores. Prometo não ficar/ser ansiosa. Falar pouco, e escutar. Ligo o rádio / ou Mozart, talvez violinos. E se quiseres ir ficando ficar… A caverna não tem portas para fechar, não posso te prender. Deixo a bagunça como ela é, coloco os óculos para te ver melhor, minha roupa de inverno, fico com as meias de lã, e te conto histórias, ou leio em francês. Gide e seu magnífico “Les Nourritures Terrestre” : […] embrasse la vie comme qualquer chose qu’il a faille perdre (abraça a vida como se fosse qualquer coisa que fosse escapar/ perder naquele momento mesmo)/ Agir sans ‘juger’ si l’action est bonne ou mauvaise. (Agir/fazer sem julgar se esta ação é boa ou ruim) Aimer sans s’inquiéter si c’est le bien ou le mal. (Amar sem se inquietar / angustiar por ser o bem ou o mal) Nathaniël, je t’enseignerai la ferveur. (eu te ensinarei o fervor/ o entusiasmo / ímpeto ou a impetuosidade) Mes émotions se sont ouvertes comme une religion. (Minhas emoções se abriram / estão abertas como uma religião que inunda toda a alma) Peux-tu comprendre cela: ( Tu podes compreender isso:) toute sensation est d’une ‘présence’ infinie. (sensação, a sensação como uma presença infinita)/ Nathaniël je t’ enseignerai la ferveur. Nos actes s’attachent à nous comme sa lueur au phosphore. ( os nossos atos / o fazer se ‘agarra’/ se prende a nós como a luz fluorecente/ eles estão ali todo o tempo) Il nous consument, il est vraie, ( eles nos consomem, apertam, agitam, é verdade) mais ils nous font notre splendeur. (mas eles são o nosso esplendor) / On n’ est sûr de ne jamais faire que ce que l’on est incapable de faire. (difícil traduzir: não temos certeza de que somos incapazes de fazer,) ASSUMER LE PLUS POSSIBLE D’HUMANITÉ, voilà la bonne formule.“( ASSUMIR, (presumir) sempre que possível, humanidade (o jeito humano de ser). Estou divagando e apostando no teu francês, tirando o meu do bolso. Quero ter dez anos mais do que tu, ou quinze e ter certeza que podes chegar, não importa a hora, e entrar sem bater. Faço um café, sou menos inglesa, ou um chá, ou bebemos uma taça de vinho, ou água com limão. Vens / chegas para fazer uma visita porque eu gosto de ti e porque tu gostas de mim: aprendemos a rir juntos. Rir de nós mesmos. Ou apenas ficar perto, por ficar…Um beijo Elizabeth M.B. Mattos

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