tempooooooo

1.

Fiquei esquisita com a tua última carta: és duro mesmo. Li e vou reler para te responder, adequadamente, ou, quem sabe, apenas dizer outra vez o que eu sinto. A carta extravagante, em impulsos de emoções – recreio te chegou/pareceu tão frívola! Apenas, e só/apenas fêmea, escreves! Sem ser gente. Isto é ruim. ( ou talvez não, como te disse, fiquei confusa). Talvez um bom estado de alerta. Depois ninguém quer ser coitadinho, mas estou coitadinha. É verdade. Quando eu te escrevo eu acordo. Se estou lendo, não estou, mas ontem dormi lendo o teu último espetáculo….  Alguma coisa conhecida; escreverei sobre…. Vou fazer depois. Tudo é depois. Ler teu livro, ontem, nova lição: transpor as desgraças correntes. Necessárias, culposas ou não. Trabalhar, sério. Escrever sério. Dar aulas sérias. Será que fui sempre fútil? Apenas mulher? Agora, velha carente? Repassar.

Escrever para o Paulo é ter com quem conversar… Palavras/pensamentos/ entrega. Assim eu me valorizo. USO? A cada carta recebida um ânimo novo. Mas se eu não merecer?! Será que estou me fazendo? Como dizes no poema? E, de repente, achei que tudo estava/está errado. Ou pura vaidade: queria que tu estivesses dentro de mim aplaudindo? Tu sabes como é, estaria “… as do uísque…”, que confias menos, estaria me mostrando. Sim, tudo está bem comigo. Por que não estaria? Tento estudar, fico aflita, pois a data se aproxima. Se a depressão vem vou dormir. Espero a chuva. Nem passo pelo poema  corpo e alma. Esqueço tudo. Vejo as duas novelas, os dois jornais da noite. “Apenas queres mais”. Coisa mais simples e direta esta frase! Tu não queres mais?  Assim gira a minha pandorga neste céu. Resolvi acordar te escrevendo.  É a segunda tentativa, mas esta carta segue.

ENGRAÇADO, ESTRANHO, como uma sacudida não esperada renova, tu és mestre. Conhecias/conheces o meu exercício de sedução. Mas, alimentar a corte é bom, tu tens razão.

O que é a vida real? Escrever, escrever? E a tal definição de solidão não explicitada? A Gata do Borralho é isto? Querendo a fada madrinha. Sempre fugindo e querendo. Freud explica? Mas, as tantas celulites, babados, gorduras soltas, pés de galinha superarão o desejo? Perdoa, amigo. Sou cruela comigo, tu consegues ser mais duro ainda.

Agora vou comprar um peixe de aquário e olhar pra ele. A carta foi o meu CARNAVAL, irresponsável. Tu és uma das poucas pessoas sérias que lês e respondes e pensas, agora perdoa.

Quanto ao FARACO, a Ana leu o conto e viu tudo diferente do que eu vi. Sou mestra de ver e entender sozinha, autista. Sei lá se é bom ou ruim. Inventei a historia de descrever dentro do conto. E quanto a ZERO HORA eu não leio, não compro. Não tenho a grana nem para respirar, nem o tempo para brincar, pouco saio de casa. Tenho q fazer pelo curso alguma coisa. Um beijo. 12/10/2004 18:03:54

2.

Ufa! Recebi carta amiga. Obrigada. Entre conflitos e ansiedades: encontros. Soubeste que estive com ‘ nosso’ amigo FT: surpresa agradável, sincopada, não perda dos sentidos por deficiência de irrigação sanguínea no encéfalo como, também, diz Houaiss: depois esquisita. As pessoas estão centradas nos eixos próprios: bom. Depois, entrelaçam-se confusa, misteriosamente misturadas, atraídas. Perdidas? Delas mesmas ou dos outros. Não sei. A repensar.

Quando? Como quando estivemos juntos ela e eu? Fantasia possível Esquisito. Repito, estranho. Pode ser mesmo estranha pessoa, ou coisa, ou situação e lá fica a variada morfologia e sintaxe. Talvez… Bom reler Jacobsen, empilhar livros, ter ácaros (tem ou não tem acento?) O dicionário me atrapalha.. Deixar o vento entrar Não cumprir com o sombrio e adequado às estantes. Que calor!? Os verdes ainda não esconderam todas as portas-janelas da minha sala. Vontade de ir ao cinema, caminhar distraída a ver vitrinas, comprar o que não posso. Não posso. A ‘corrida’ segue com o curso do professor Alvísio Greco para consultor Técnico Legislativo da Assembleia Legislativa /RS. As provas serão em março: depois o magistério em abril. Se eu não conseguir fincar o pé num bom emprego volto para o magistério retalhado do Brasil. Salva estou por alguns alunos que encaminham convites de Formatura, cartas, bilhetes, saudades, conversas amenas de um tempo em que a ULBRA era o centro. Doutorado. Mestrado. Como? Tudo estacionado lá dentro de mim como um pulo errado. Precipício? Lembras quando eu quis me mudar / ir para Minas Gerais? E agora José? Que tudo acabou? Deveria ter confiado nos bons conselhos do meu poeta PHF. Estou esmolando entre concentrada e esquiva, errando mais, acertando menos. Mas, finalmente, consumindo…uau! Basta aos acertos monetários., a liberdade. O espelho não é bom amigo, se eu pudesse visitá-lo como Alice o fez, talvez. As maravilhas estão do outro lado, no vazio preto que espelha. Eu estou aqui assustada, penas assustada. Já pode ser um passo, o primeiro. A depressão esvaziou-se nos remédios e eu recomeço, liberta: viverei mais? Darei melhores exemplos? aceitarei aprova? Dos talentos devolverei dois, um, deixarei enterrado, mãos vazias. Qual a missão? Tantas coisas quero contar! Não posso estender- me … Mais estudo, menos aprendo. Abro as portas para uma longa entrevista sobre Iberê Camargo e a professora que se expõe não mede palavras. Contudo a tese das cartas, as que rastreiam a doença-câncer. já mencionadas por Tavares, cai solta na gravação. O que farão com isso? Retomo outras questões, respiro entrecortando as palavras que se soltam, e nem penso enquanto falo. O que será que a moça Elizabet disse aos meninos coletadores de histórias? E filmaram…

O outro é confiável, somos apenas vigiado? Amigo/ Amigos? Onde? E o meu amigo? O que sabia ele do Iberê que não passasse pela peneira do Décio Freitas? (cruel comigo, com todos, observo, sinto e sei) Nos recortes das conversas, sendo a última da série (depoimentos) pude cheirar declarações: verdade se não nos refestelamos no Ego, seremos esquecidos. Má. Veneno, ciúmes, malícia desdobrada. quem eu sou? O que vais dizer/pensar sobre o que te escrevo? Somos velhos crustáceos, não podemos deixar de ser ‘ pedras sem musgo’ como explicou Sérgio Bordini, amigo de infância da rua Vitor Hugo. Gaudéria sou. Salto de galho em galho. Tantas vezes perdida. Sem bando. Um amontoado de colagens vantajosas, destoantes. O que disseram? O que posso eu, ainda, dizer? Cachoeira do Sul, fazenda perto de Rio Pardo, para ver meu filho Pedro e minha nora, conhecer os pais, irmãs. Roteiro novo. Quatro dias remexendo na saudade do campo, na história passada, repassada: pronta já nas mãos dos advogados. Outra perda. Sair da caverna é arrastar pesados cadáveres numa jornada que não terminou… Lembro da história de Patrícia Highsmith, do filme O Sol por testemunha com Alain Delon – o desejo de ser o outro não nós mesmos, sempre o outro… Depois de separada tanto tempo, o divórcio a ser finalizado com a partilha. Vai -se um pedaço, chega um dedo, um fio de cabelo, um caroço: o terror. Segue a lembrança, perco pedaços de vida, de ontem, revejo o que restou, mesmo não tendo o espelho. Acho que isso explica: sobrevivência. Reli cartas, livros, replantei o pomar (pessegueiros, goiabeiras, laranjeiras, e limoeiros). Construí casas, muros, tramei arames: pedaços… Olhei os cheiros. Senti as cores: vi estrelas e lembranças. Que a tumba esteja bem fechada, margaridas. Os cadáveres não assustam, se deterioram, às vezes assombram… Outras narrativas brotam nos meus pacotes, não escrevo. Vontade eu tenho de contá -las: cheias das mentiras boas, necessárias, perfeitas: aquelas que se encaixam no veredicto viver.

Amigo querido, como eu me alonguei! Carta pequena,, mas contudo, todavia espichada em romance. Percebes que amadureço? Não acreditas. Uauuu! Como posso te convencer? Na próxima carta saltarão adolescências, lamúrias, saudade e o sensual da mulher, sem exageros. Prometo. Farás a média. Como eu te gosto! Um beijo. Escreve mais. Muito. Sempre. Qual palavra é a correta? (12 de janeiro de2001)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s