Diário de Inverno – memórias

“De nada te servem os bons velhos tempos. Sempre que te dá para a nostalgia, para chorar a perda das coisas que pareciam fazer a vida melhor então do que é agora, mandas-te parar e pensar melhor, olhar para o Então com o mesmo rigor com que olhas para o Agora, e depressa chegas à conclusão de que existe pouca diferença ente eles, de que o Então e o Agora são essencialmente o mesmo. Claro que tens múltiplas razões de queixa das malfeitorias e estupidezes da vida americana contemporânea, não passa um dia em que não despejes as tuas arengas lamentosos contra ascensão da direita, as injustiças da economia, o desprezo pelo ambiente, a infraestrutura que se esboroa, as guerras sem sentido, o barbarismo da tortura legalizada e das rendições extraordinárias, a desintegração de cidades empobrecidas como Buffalo e Detroit, a erosão do movimento operário, a dívida com que sobrecarregamos os nossos filhos para podermos frequentar as nossas faculdades excessivamente caras, o fosso cada vez maior que separa ricos e pobres, para não falar do lixo de filmes que estamos a fazer, do lixo que comemos, do lixo que são os nossos pensamentos. É o suficiente para uma pessoa ter vontade de desencadear uma revolução – ou viver como eremita nas florestas do Maine, alimentado se de bagas e raízes de árvores. E no entanto, se olhares retrospectivamente para o ano em nasceste, que vês? As leis de Jim Crow em pleno vigor em todo o Sul, as restrições antissemíticas às quotas de imigração, os abortos clandestinos, o decreto de Truman a impor um juramento dos Dez de Hollywood, a Guerra fria, a Ameaça Vermelha, a Bomba. Cada momento da história é causticado pelo seus problemas e injustiças, e cada período produz as suas lendas e as suas devoções. Tinha quinze anos quando Kennedy foi assassinado, andavas no liceu, e já a lenda diz que a população americana inteira foi reduzida a um estado de dor muda pelo trauma acontecido no dia 22 de novembro. Mas tu tens uma versão diferente para contar, porque se deu a coincidência de teres ido com dois amigos a Washington no dia do funeral. Querias estar presente porque tinhas uma grande admiração por Kennedy, que tinha representado uma mudança extraordinária depois dos oito anos de Eisenhower, mas também querias estar presente por que tinhas a curiosidade em saber qual era a sensação de participar num acontecimento histórico.” (p.142-143) Paul Auster Diário de Inverno memórias – traduzido do inglês por Francisco Agarez Edições Asa II, S.A. Portugal

…, uma conversa com o papel, o livro me faz bem, aqui tem gosto /sabor e história…, bem, sou suspeita, uma certa comunhão…

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