pensar e caminhar, sem encontrar

A leitura vai descosturando o dia, e a vontade fica firme: vou interromper o processo, não vou dizer, nem comentar, nem associar, apenas respirar. Mas respirar por respirar parece tão absurdamente vago! Notícias exibidas, imediato de uma estupidez latente, natural. Sim, fotografar se transformou num eficiente texto labiríntico. E teremos tempo para olhar tudo e tantas vezes? Perdi uma emblemática foto que me foi enviada por um amigo querido, mais do que querido, mas o detalhe deste querer bem não importa. Perdi a foto no computador, como na nuvem…, mas se o céu não tem nuvens, como faço para encontrar? E lá se foi meu time do amor. Por que amor? Porque o último será sempre mais amor do que o primeiro: faça último o primeiro amor, senão fica assim tudo a flutuar antes de terminar… (uauuuu), mas não é nada disso, Umberto Eco escreve, descreve, enquanto explica/discursa/passeia nas suas teorias ou no fenômeno, ou entendi errado? Leio assim mesmo, aos solavancos. Eu me surpreendo e me admiro: escrever se transforma numa balada da mesmice, cansada das novas vias, traiçoeiras repetições. Assim mesmo vou seguir escrevendo, tentando, e inventando um fluxo para o Amoras. Eu a me repetir.

Nosso relacionamento perceptual com mundo funciona porque confiamos em histórias anteriores. […] Ninguém vive no presente imediato

Atenção! Rever a surrada advertência de não viver no passado, não ficar na releitura das velhas cartas do tempo, não voltar aos amores passados, a vida acontece hoje/agora, ok! hoje agora, mas somos estas migalhas de memória também, e vou a me surpreender lendo os ensaios palestras do Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, livrinho reencontrado.

Ninguém vive no presente imediato; ligamos coisas e fatos graças à função adesiva da memória pessoal e coletiva (história e mito). Confiamos num relato anterior quando, ao dizer ‘eu’, não questionamos que somos continuação natural de um indivíduo que (de acordo com nossos pais ou com o registro civil) nasceu naquela determinada hora, naquele determinado dia, naquele determinado ano e naquele determinado local. Vivendo com duas memórias (nossa memória individual, que nos habilita a relatar o que fizemos ontem, e a memória coletiva, que nos diz quando e onde nossa mãe nasceu), muitas vezes tendemos a confundi-las, como como se tivéssemos testemunhado o nascimento de nossa mãe (e também o de Júlio César) da mesma forma como ‘testemunhamos’ as cenas de nossas experiências passadas.

Esse emaranhado de memória individual e memória coletiva prolonga nossa vida, fazendo-a recuar no tempo, e nos parece uma promessa de imortalidade. Quando partilhamos dessa memória coletiva (através das histórias de nossos antepassados ou através dos livros), somos como Borges contemplando o mágico Aleph – o ponto que contém o universo inteiro: no decorrer de nossa vida podemos de certo modo estremecer junto com Napoleão quando um vento frio de repente fustiga Santa Helena, exultar com Henrique v pela vitória em Azincourt e sofrer com César pela traição de Brutus.

E, assim, é fácil entender por que a ficção nos fascina tanto. Ela nos proporciona a oportunidade de utilizar infinitamente nossas faculdades para perceber o mundo e reconstituir o passado. A ficção tem a mesma função dos jogos. Brincando as crianças a viver, porque simulam situações em que poderão se encontrar como adultos. E é por meio da ficção que nós, adultos, exercitamos nossa capacidade de estruturar nossa experiência passada e presente.” (p. 236-137) Umberto Eco Seis Passeios pelos Bosques da Ficção – São Paulo; Companhia das Letras 1994

Fico a transcrever, cacoete didático. A esperança de que os livros possam ser relidos, abertos. Que o interesse se amplie e a conversa cresça em terreno firme. Nunca o que eu sinto ou eu possa dizer importe ou seja o ponto, o interessante. O curioso é a ligação, o grupo, o convergente. Ou o já dito/pensado/escrito, a identidade coletiva o abraço coletivo.

Se ainda estás no mesmo lugar, se o sentimento flutua, eu te peço, a foto, outra vez. Nela estamos tão abraçados! Enrolados na memória, a história por inteiro. Quem tu és, eu sei. Como eu sou, não consigo entender. Sou lenta, sou lenta. Sou lenta, tantas vezes te expliquei. Os desenhos inacabados. Aqueles pedaços fazem parte do todo, e são a memória de um tempo, na verdade esquecido, enterrado em Torres. Não sei como pude perder o essencial, a voz, o encontro, o gosto. Se tudo pude/podes desenhar, imaginar, num repente, de repente, neste agora aflito se quebra, se desmancha, mas eu ainda te beijo… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2021 – um inverno que se faz menos, um vento a conversar e o sol vai e vem enquanto eu espero. Sabes, sem esperar muito, eu acompanho teus passos a passear pela lagoa.

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