leituras versus encontro

Leituras do acaso, da procura. Abrir um livro comprado há tempo, tanto tempo! (1986)… e ir, voltar, encontrar. Quantos anos?! De lá pra cá nas mudanças e ir, voltar, encontrar… Sem encontro, sem o clic. Decido me desfazer, o tal desapego necessário para deixar mais leve, leve?! E se eu voar / desaparecer em tanta leveza?! Pois é, o humor pesado, certos agravos, certo…? Nem sei bem o que estou escrevendo. Volto ao tema, um livro ao acaso, e, uma súbita intimidade, ao acaso, como aqueles amores que inflam arebatam! E, e, depois nos perguntamos, mas, como foi mesmo que aconteceu?! E por que se perdeu? Penso, penso em Paulo Sérgio, refaço a história que é toda, inteira, pontuada de altos momentos, todos altos, espaçosos e lindos… Como desaparecemos de repente?! As histórias. Mas, voltando ao livro da Violette Leduc – A Bastarda (La batârde), apenas este, peguei, então comecei a ler, e não gostei. Já ando cheia de pruridos para as leituras, aquela história de tempo…, mas o prefácio é de Simone de Beauvoir!Houve um tempo que eu lia muito e muito porque algum lugar era o fim, lia no ônibus, na praia, de madrugada, de manhã bem cedo, eu lia. Fazia tudo correndo para ter tempo de ler / de escrever qualquer coisa…E agora? E agora que não preciso correr, nem tenho tanto para fazer, nem para falar (moro sozinha), ou… E agora? Por que os livros me enjoam? Não “me agarram” como antes? Se não são os meus eternos queridinhos, que releio, que volto, que transpiro pra continuar, e outros importantes, amontoados na cabeceira como o do Robert Musil.., também largo, amuada. Tramas, histórias, descrições não me interessam, ler por ler para ler, aonde está esta ElizaBeth? Por que perdi o gosto? Abro ao acaso e começo a ler (p.273 -274) e estou lá.

“Fui dar em meu quarto de Levallois-Perret. O silêncio, o isolamento de quatro paredes e Paris se evolou. Meus objetos eram fantásticos porque eram fiéis. Tigela, pires, copos sobre a mesa. Por que seria Limoges? Que legume limitado… amadurece meus suspiros. Raspemos já que os compramos. Se eu tivesse um armário em meu quarto os acasos me chegariam. Tenho uma poltrona com mesa, tenho um divã entre duas torrinhas sem graça. Tenho amizade pela chave do meu quarto, pelos edifícios lá longe, tenho um pouco de céu entre os lados das paredes: a mais balsâmica das feridas. Minh’ alma respira, meus olhos vagueiam quando há estrelas. […] Esta noite eu me desolo, esta noite vou ficar desolada porque não entendo filosofia. Desolação de quatorze anos. Ler Kant, Descartes, Hegel, Spinoza, como eles lêem romances policiais! Quanto mais me esforço, quanto mais avalio o parágrafo, o vocáculo, a pontuação, a frase, da pontuação, do vocábulo. Quanto mais me dedico ao texto, mais avaro ele é. […] Sou um velho carvalho, ele é velho, sou velha. Adequada, inadequada. Meus cabelos crescem, se fossem pedaços de gelo…eu morria de frio com meu inútil desejo de me tornar inteligente… Kant, Descartes. Hegel, Spinoza: minha terra prometida se distancia, minha terra prometida se vai. Ter uma vida interior, refletir, fazer malabarismos, planar, virar equilibrista no mundo das idéias. Atacar, replicr, refutar, que competição, que tumulto, que abraços. Compreender. O verbo mais genertoso. A memória. Reter gêiser de felicidade. A inteligência. Minha lascinante privação. As palavras, os pensamentos entram e saem como borboletas. Meu cérebro… sementes de dente-de-leão ao sabor do vento. Leio, esqueço enquanto leio. Consolar-me-ei com o nome de Cassandra, Cassandra. Pudor, elegância. Discutir, trocar opiniões, possuir convicções. A neve não dança na cabeça dos idiotas. Cassandra, Cassandra.

(e dei o destaque)

E EU ME IDENTIFICO! Reconheço um pedaço de meu texto, mas não é meu texto, Violette Leduc está escrevendo, pensando, dizendo… Não resisto. Por que não consigo, não consegui nesta vida? Registro meu desapontamento. E eu não escrevi livro nenhum…Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres no calor, calor, de outro verão. Não gosto de verões, mas, de certo, vou detestar o inverno. E estou achando horrível envelhecer, E tu não prestas atenção…, repetes, te gosto, te amo, eu volto, assim, quase distraido. Droga!

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