Notícias DO Mundo / MICHEL SERRES
eu nos meus encantos / encantos com a França / a Bretanha / por quê? Não sei, ou sei do agreste / pedra e mar. Sei lá…
” A verdadeira Bretanha se revela no inverno. Caminhar em volta de Belle-Île no final de dezembro, seguir pelas vertiginosas falésias da península, em cruz, de Crozon ou pelos abers (vale invadido pelo mar) do Finistère-Nord, de costas para a brisa ou de frente para as rabanadas de vento, em meio a abertas repentinas e súbitas calmas sucedendo-se aos pés-de-vento, é imergir na felicidade agridoce dos primórdios do mundo. (p.37) Michel Serres Notícias do mundo. Ed. Bertrand Brasil
‘felicidade agridoce dos primórdios do mundo’ / como posso explicar o doce do sentimento? punhado de palavras / de mundo /felicidade.
“Portanto, antes de morrer, eu gostaria de descer, por alguns dias ainda, por Garonne, meu velho amor, sozinho ou a dois, isolado do mundo, e à noite, poder amarrar nosso barco a um choupo, numa margem escarpada e deserta, para contemplar longamente, sentado no cascalho – vida apressada, ainda por alguns minutos -, o sol que se põe, duplo e cinza rosado, entre as correntes, o bagassé, a chama vivaz da correnteza, o cheiro insosso da água doce, o roçar dos caniços, a brisa úmida sobre a pele, no sossego horizontal e na melancolia fugidia daquilo que não cessa de se substituir.”
devagar, lento, o texto chega emocionando: percebo, sinto, estou lá e me envolvo com o detalhado, repartido, dividido do que se chama… nem encontro o nome deste prazer da leitura que escorrega fluído e vivo: texto precioso, mesmo sendo tradução… modo geral, as traduções, acidentadas ou cuidadas escorregam… impotentes tradutores, mergulhados, apaixonados ou não, trabalham, não se consegue fazer o tempo inteiro / completo pendurado na emoção, em certo momento apenas trabalha-se. pela tradução (como tradutor) se apreende o completo. palmas para eles / obrigada… eles encontram e sabem manejar a cor ou o som, o vento, ou a paz… sentimentos em outros idiomas, não o nosso fácil, mas o elaborado / lapidado, escavado sentimento… dificuldade em traduzir / descrever o soluço e o desejo do amor, embaraço em explicar o quanto eu te amo, ou tanto eu me perco em raiva. teu silêncio meu tormento, minha paz, eu sei. como se, finalmente, quebradas ilusões, estamos cada um em seu gramado de quintal… rajada de vento direto do norte / embalada pelos sentimentos de marinheiro de certo meu pai. herda-se emoção, encantamento, devaneio e a tristeza nostálgica do que não aconteceu, mas foi sonhado no quintal da infância, adolescendo, mas crescida eu constato, impossibilitada… quem criou o obstáculo? eu mesma, de certo… viver é criar obstáculos e depois concluir que se pode, afinal, derrubar o muro e tocar no sonho. conviver também. Elizabeth M. B. Mattos – maio (gelado) de 2026 – Torres