O Conto de Genji (volume 1)

Era setembro, e até a cor na tarde silenciosa penetrava na pele. A grama das moitas do jardim estava ressecada, e até o canto dos insetos já era tênue. E, contemplando a paisagem como um quadro, em que aos poucos as folhas começavam a se tingir. Ukon sentiu o peso estranho de ter acabado, sem esperar, como dama numa casa aristocrática. A casa de Gojõ, onde as flores de y~gao mal começavam a abrir , era algo que só de lembrar lhe dava vergonha. Ao ouvir, no bambuzal, um pássaro chamado iebato (pombo doméstico) cantar fora do tom, Genji não conseguia afastar da memória o rosto assustado de Y~ugao quando aquele pássaro cantou naquele in – ainda lhe parecia tão delicado.

“Quantos anos ela tinha? pareceria ainda mais jovem do que uma moça comum – foi por ser de vida curta, não é?”

“Ceio que tinha, sim, dezenove anos. Eu era a lembrança deixada pela outra ama de minha senhora; e o Sanmi-sama teve bondade comigo, criando-me junto da senhorita. Quando penso nisso, fico envergonhada de estar vivendo assim, tranquila, depois que ela morreu. Eu Ukon, vim confiado naquela pessoa frágil como no único senhor em que podia se apoiar.”

” Eu gosto mais de mulheres frágeis. Talvez por eu mesmo não ser tão esperto: não gosto de mulheres demasiado inteligentes, que não se deixam mover pelos sentimentos. Eu gosto de alguém que, embora pareça que poderia até cair em tentações, ainda assim é recatada e entrega toda a vida ao homem que fez seu amante; e penso que seria bom educar, à minha maneira, uma pessoa assim, calma e fazê-la crescer” […]

Mas não lhe saiu uma canção de resposta, e Ukon sentiu o peito apertar, pensando em como seria se, numa hora dessas, eles dois estivessem ali juntos. Mesmo lembrando o barulho incômodo do kinuta (pilão de bater panos). Gengi sentia saudade daquela noite e cantava: Agosto, setembro – longas noites.

mil vozes, dez mil vozes, sem hora de parar. Murasaki Shikibu

eu me detenho nos meses, nas flores, na nostalgia do gostar, na quietude de que a vida está toda acomodada num ritual de estar junto, um estar junto prazeroso, gratificante, sem mais ou muito, apenas contínuo. como que o futuro inserido num hoje-passado. asssim escrever pode ser agarrar o momento, prolongar a vida, idealizar o romance. acordar a experiência, a disciplina.

meu querido – acordei no meio da noite e tomei um leite quente / a cozinha ficou caótica, o tempo de ser hoje está anarquizado, não porque me estatelei num fio de aspirador esticado, mas porque este vagar dos gestos demonstra uma tristeza grudada, um desespero não definido e agora este meu olho direito avariado cheio de pregas. Vai demorar para tudo voltar ao normal, mas não tem normal. Estas marcas horrendas ficarão. O jantar / almoço que te propunhas se desmancha nesta desagradável visão. Mas posso procurar um tapa-olho de Pirata e será curioso se eu me vestir como tal. Sem medo.

amamhã tentarei seguir a rotina, limpar a casa, prestar atenção. ler menos, pensar mais, sossegar a alma e pensar coisas boas. de repente fazer o fazer como se nada tivesse acontecido. o roxo-quase preto / uma máscara cheia de pele… uma cirurgia plástica colocaria tudo no lugar? tudo? como será ter o rosto avariado assim? Elizabeth M.B. Mattos- junho de 2026- Torres bem frio. Talvez eu gostasse de estar em Paty / talvez eu quisesse que o Pedro estivesse aqui. Talvez eu me apaixone por Bonito. Ou consiga resolver a piscina da Ana. Joana, minha filha, nunca haverá um ponto, mas sempre esperança. E o João segue sendo João.

As narrativas japonesas me encantam… os costumes certos, numa nota de acerto lenta, colorida, mansa, carregada de amor encantado /fantasia. viver é uma fantasia.

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