a porta estava aberta, ele entrou, ela veio atrás, sem constrangimento sentou. a sala cheia de jornais espalhados pelo chão, dois livros abertos. nenhuma curiosidade. ninguém tocou em nada. no banheiro se escutava o chuveiro correndo e no outro quarto, o radio explicava o rumo das eleições. íamos ter dois turnos. deitada na cama estreita do outro quarto, de baixo das cobertas, ainda febril, apenas fechei os olhos. adormeci imediatamente.
no meio da noite levantei para ir ao banheiro. perto da janela, um ramo colorido, dálias, eu acho. uma fresta da janela deixava aquele gosto de morno de primavera entrar. súbito a vontade de beijar percorreu meu corpo. senti saudade do teu abraço, meu querido, e daquele desespero bom de nos atirarmos um no outro quando não tínhamos vontade de falar, apenas abraçar. aliás, tudo já havia sido dito, o cheiro e o gosto, já era o discurso necessário… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
meu querido, embora não possa te falar, todos as vezes que eu liguei * (sigo insistindo), tua moça responde que não gostas de conversar ao telefone… acho engraçado quando lembro das nossas conversas por interurbanos, nossas urgências amorosas, das batatas sem sal, e as frutas maduras demais para o meu gosto / eras tu inventando uma vida para nós dois. a história eu conto aos pedaços porque amor se esfiapa mesmo, o bom tá no beijo demorado, no agarro e nas noites apertadas um no no sono do outro.


