CARTAS PARA LORENA

Santa Cruz do Sul, 21 de maio de 1992

Lorena, amiga querida: o silêncio enorme é o atropelo que tem sido a minha vida. Tantas e tantas coisas aconteceram ao mesmo tempo! Como poderia contar tudo! O meu pé torcido me ajudou a descançar: repouso absoluto. Nem senti o enorme calor que foram aqueles dias. Lamentei não ver a Onni, nem fiquei sabendo detalhes da saúde do Filipinho. O tempo se fechou nele mesmo. Fiquei em silêncio porque as coisas me aconteciam e se amontoavam… Ana Maria veio da Alemanha, já foi, talvez volte mais uma vez: morre de saudades. Joana trabalha no Waecheter, na Loja do Boticário. Pedro vivendo em Petrópolis, no Rio de Janeiro, se adaptando, levando a vida. Luiza crescendo e sendo feliz… assim me parece. Somos as duas muito agarradas, dorme comigo, e faz tudo comigo. Ruim, mas este amor nutre as duas. Perdi uma grande amiga, Maria Luiza, filha do advogado Lia Pires, fomos colegas nas Cônicas, todo o ginásio e segundo grau. Fiquei chocada. Não tenho ido a Porto Alegre. Cortei meu cabelo bem curto, tirei toda a tinta, está branco. Infelizmente não consegui emagrecer. Jorge continua o mesmo. Atualmente muito querido.

SCSUL, 25 de maio / isso mesmo, parei a carta, não pude terminá-la antes, uma loucura, isso mesmo. Aliás, de acordo com o Jorge a louca sou eu mesma, ultimamente é este o seu maior desaforo. Anda tendo umas crises. Aliás, te confesso que não sei se não sou eu mesmo que as tenho. Mas, voltamos a não nos entender, uma droga. Fico super triste e MUDA. Não quero que comentes sobre isso, já tive problemas por causa das cartas, da minha correspondência. Não é ciúme. É perda de poder, já descobri. Acho que ele não me aguenta mais, esta é a verdade. No final devo ser meio chatíssima mesmo. Hoje não estou nada legal. Não queria te escrever nesta situação, mas não vou deixar para mais tarde ainda. Eu te gosto muito. Minha amiga da maturidade. Sinto muitas saudades. Andei tentando encontrar a Armanda, mas é bastante difícil. Telefonei, convidei, mas estamos as duas amarradas, sem encontrar o tempo. Precisava mesmo conversar com ela. De alguma forma estamos vivendo situações semelhantes. Ela está advogando. Horários apertados. Beijo

Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres (velhas cartas)

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