Nesta Hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda

Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo

Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio

E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto

Ganhar meio salário

Como só ter direito

A metade da vida

O demagoggo diz da verdade a metade

E o resto joga com habilidade

Porque pensa que o povo só pensa metade

Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade

Para especializados clérigos letrados

Não basta girar o povo é preciso expor

Partir do olhar da mão e da razão

Partir da limpidez elementar

Como quem parte do sol do mar do ar

Para construir o canto terrestre

—Sob o ausente olhar saliente de atenção—

Para construir a festa do terrestre

Na nudez de alegria que nos veste

20 de maio de 1974

(p. 270-271) Sophia de Mello Breyner Andresen [ coral e outros poemas] Companhia das Letras – Primeira Edição – São Paulo – 2018

sair do lugar / fazer acontecer

comover / ver como / com sentimento

e

é preciso mover-se para se comover

neste dito inverno bem verde e laranja

e

amarelo das frutas cítricas e limões e

ilusões / aiiii!

pois é, doeu, mas vai passar! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 sem poesia, juro! quero texto e sem rimas… (risos)

tempo alternado

inverso e… tenso, depois manso

encontrei as palavras:

“Com certeza o que existe de melhor na vida é o movimento, porque caminhando com uma velocidade igual à do tempo, no-lo faz esquecer. Um comboio em marcha é uma máquina de devorar instantes – por isso a coisa mais bela que os homens inventaram.

Viajar é viver o movimento. Mas, ao cabo de pouco viajarmos, a mesma sensação da monotonia terrestre nos assalta, bocejantemente nos assalta. Por toda a banda o mesmo cenário, os mesmos acessórios: montanhas ou planícies, mares ou pradarias e florestas – as mesmas cores: azul, verde e sépia – e, nas regiões polares, a brancura cegante, ilimitada expressão-última da monotonia. Eu tive um amigo que se suicidou por lhe ser impossível conhecer outras cores, outras paisagens, além das que existem. E eu, no seu caso teria feito o mesmo.

Sorri, ironicamente observando:

  • Não o fez contudo…
  • Ah!, mas por quem me toma?…Eu conheço outras cores, conheço outros panoramas. Eu conheço o que quero! Eu tenho o que quero.

Fulguravam-lhe os estranhos olhos azuis; chegou-se mais para mim e gritou:

  • Eu não sou como os outros. Eu sou feliz, entenda bem, sou feliz!”(p.152) Mário de Sá-Carneiro Antologia – Organização, apresentação e ensaios de Cleonice Berardelli – Rio de Janeiro 2015

mapa

se tenho o mapa e um tesouro, estou no caminho

outras vezes não tenho nada: sento na areia e não gosto: prefiro entrar no mar gelado

verdade, cansei de pensar, cansei de procurar, de explicar e cansei de dar explicações

o desenho não me parece impressionante, as conquistas pequenas

não ter dinheuro, uma droga / uma droga muito grande / o bom é trabalhar, trabalhar e trabalhar o fazer mas pessoas da minha idade…

inventam

as flores no lugar, os pratos na mesa. E, as certezas doentes, pequenas, exaustas…

não tenho boas soluções, talvez parar seja uma boa ideia! Elizabeth Menna Barreto Mattos – junho de 2023 – Torres

dfglkmwjisso

não importa o que possa escrever, não diz / não traduz / não importa que eu possa limpar / aspirar /, não resolve.

não importa que eu compreenda, não explico, não curo, não embalo, não abraço, sou mesmo uma pedra de gelo que não descongela, pode ser pior do que isso? uma rigidez permanente / intrasponível?

vou lavar as mãos, deixar os pés de molho em água morna, esfregar o corpo devagar, limpar, perfumar, lavar, esfregar… quem sabe consigo explicar…Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres

capim cheiroso

O que me faz dormir, arranca as forças, não são os tambores, nem o silêncio das bombas, nem a cama aquecida, apenas o detalhe apaziguado. Tua voz a me dizer: estou feliz, consegui. E eu me estico na certeza preenchida de que te amar alimenta felicidade colorida, festejos perfumados com bolo de chocolate. Obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres

indício /rastro /vestígio

do sol esta lista colorida, quente… inverno em tiras, amorosamente, mornas / ensoladas / redundantes

e a minha particular desordem caótica a ser modificada, uaiiii / ufa! aonde se esconde a boa vontade de fazer, o espelho para arrumar este vento, educá-lo: cabelos a ser alinhados. Não escuto. Nem o sono consigo ajustar.

voltou o aspirador, meu vício amigo! amanhã, eu te prometo, comprarei flores e te esperarei perfumada. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2023 – Torres