ouvir

Ouvir / escutar / entender / prestar atenção ao que o outro diz, sem julgar, sem açoitar nem questionar, apenas, ouvir. E, de alguma forma, acolher. Acolher o cansaço, a fome, abraçar os sonhos derramados, as lágrimas nos/aos soluços… Como é difícil ouvir, escutar e entender sem polêmica, sem palavreado – impulso, apenas escutar…

Será que atravesso os oitenta anos sem entender nada de amar? Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2023 – Torres

leitura

Ler pode ser respirar e falar ao mesmo tempo. Pensar, pensar, para conseguir entender o voo do pensamento. Estas algumas coisas me fazem ler, obstinadamente. Leio para conseguir entender quem eu sou, como se eu fosse a réplica, ou um pedaço de quem já foi… Ou para entender o outro, como ele é. Complicado saber quem sou, quem és, como nos damos as mãos, como me ajudas, como eu te ajudo. Um jogo de perseguição… Um jogo a trazer de volta a casa. Os pais dentro da casa, os irmãos, os cães, na casa. E com este puxar de tempo vem o perfume dos frascos enfileirados, o cheiro de bolo, o suor do verão… Ah! Quero os vidros perfumados dos perfumes!

Observar o outro na conversa distrai. Entro, sorrateiramente, no sorriso, na não compreensão. Depois as acertivas, ou a conversa se gruda no prazer de olhar, depois de tocar, depois de abraçar e também separar… Desbaratinar. Este fazer completo joga logo a pessoa para escrever, não basta explicar no atropelo da conversa, distraída ou sonora, com a voz, ou com teus olhos azuis, eu me distraio. Digo muitas sandices.

O que eu quero te dizer agora? Todos os livros se costuram dentro da pessoa, como uma super roupa de poder, e o hábito de ler, ou de reler os livros, os amados, é um exercício de domínio interior… Eu preciso me entender…

Quero ficar falando/conversando / dizendo uma tarde inteira. Comer o bolo de milho, ou o bolo de chocolate ou os teus sanduiches de festa, beber o chá e falar falar falar… Minha filha querida, era certo que dormirias no meio da minha conversa, então, eu puxava as cobertas, e sabia que nunca seríamos tão felizes como naqueles preciosos tempo de ler em voz alta. Dormias com a cabeça apoiada nos meus joelhos.

Não tem estudo mais intenso e delicado do que a grande literatura para quem se interessa por/em psicologia dos seres humanos, não tem outro caminho… Ah! Queria te explicar como foram estes anos todos! Um dia! Elizabeth M.B. Mattos maio de 2023 – Torres

de volta

Uma rua preferida, sempre passos lentos, procuro tesouros: tampinhas, vidrinhos coloridos, também restos de azulejo para serem polidos, a cor a ser recomposta, os pedacinhos o jogo. Este pensamento agitado, mas manso de criança, não invadido mas pontilhado pelo perfume do jardim.

Ah! O tempo desta leveza! Na desordem do dia, dos cinzentos, da rotina, mergulho ora num filme, ora num livro aborrecido, ou numa possível desordem, na vida de um filho, do outro, dos netos e danço valsa com a Valentina. Esqueço a água do chá… Ouço música de rádio, logo canso. Desligo. Desligo a comunicação varrendo as folhas! A poeira se acomoda incômoda. A perfeição, vou mesmo encontrar a perfeição! Sem caminho, avanço em todos… Coisas do tempo! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

Estas viagens intermináveis de temporadas alegres!É o gosto do verão que foge deste inverno quente do Rio Grande do Sul.

tronco envelhecido

Cardeal Gonzaga

Sol! – Nós somos a saudade. O pensar que se amou, que se viveu… O amor!

– Um troco envelhecido a cuidar que deu flor!

Depois, nem embecimento

Misterioso monte é neste mundo a vida!

Todo rosas abrindo, ao galgar na subida,

E a velhice, ao descer, toda cheia de espinhos…

– Ai, tão velhinhos! (p.24) Júlio Dantas A ceia dos cardeais

A conquista era tudo; o resto, quase nada. (p.30)

Foto: Marina Pfeifer

audácia

Tem um tédio agarrado no cinza. Tem tédio preso neste tempo lento e descosturado da rotina. Falta rotina. Falta a vivacidade da rotina florida… Propósito ou amor, ou audácia, ou vontade. Falta insônia dentro do café com leite, e também a vontade. A vontade de dizer se esconde.

Em que esquisito lugar tu te escondes, meu amor. Tu te escondes da minha velhice ou da minha audácia, ou desta juventude que se aperta? Tu te escondes das minhas risadas soltas.Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

para Marta

Marta, não esqueci de lembrar. Lembro todos os dias que preciso
escrever, colocar casaco, repousar a cabeça, deixar o mal-estar passar
e desencantar…

Demorei muito para me dar conta que a tua casa não estava mais no
lugar que deveria estar: o que era um balneário se transformou numa
cidade: outras regras, outros jeitos e muitas, muitas pessoas.
Impressiona o fluxo. Sem um churrasco de vizinhança, sem os meninos
brincarem, sem os cães entrando e saindo… Mudou o ritmo, e o tempo.
Observar será redescobrir, mas, o jeito de ser de cada um parece tão
igual!, não se pode acompanhar estes estados mutantes e sugestivos.
Engraçado isso. Acompanhar o que muda sem mudarmos… Se transformo o
olhar, estranho o meu próprio olhar…

Loucura os filmes! O cinema! Pode existir maior magia
que a sensação de estar lá? E depois, como é lento o voltar para casa,
sair da tela, da experiência? O esquisito de viver é o
desconhecido / o desconhecido de ser estranhos para nós mesmos. Vemos
os outros, fazemos coisas apressadas, resolvemos, dormimos cedo,
acordamos mais cedo ainda, tricotamos, bordamos, e não sabemos nada de
nós mesmos… Uma viagem para outro, outro eu, não sou eu. Ah! Os pintores e
as telas. Um finito com limite e o infinito. Pobre de quem escreve! O
poema não termina nunca… E as palavras não se completam, completas, cheias, a transbordar. Queria te
escrever cartas, não tenho conseguido. Mas farei um esforço e
acalentarei a rotina. Um beijo carinhoso. Um obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres, sem os balões.

mal idade

a maldade da idade (do outro), não é, apenas fazer / praticar / exercer o mal,

M A S sim,

uma pitada de intromissão. um vampiro.

uma posição insistente de vigilância. o voyeur deixa a convivência incômoda, escuta o teu sonho, o telefone que , ainda, não tocou, escuta os cheiros, sabe os movimentos…

não deixa o outro ser.

Espia / vigia, e sufoca. Apaga o individual e a liberdade: eternamente, vigia. Algumas relações vão se desfazendo neste mal estar… Alguns confundem com posse, ou ciúme do amor, não. Não é amor, mas maldade. Elizabeth M.B.Mattos – maio de 2023 – Torres

minha avó

Minha avó e a sua vida murada. Uma rede de ciclos intercomunicáveis e restrita, seus atos e palavras tendem a repetir- se com variações quase imperceptíveis ou imperceptíveis. Acumulando-se. Atos e palavras, uns sobre os outros, obcessivamente. Minha avó e sua vida murada.

Amanhecer com pincelada nova: mais azul no verde. O cinzento se esparrama: alaranjados reviram na boca. Fome de laranjas bergamotas e mamãos, ou do abacate amassado, verde, lustroso.

O balão quase entrou pela janela, assustadoramente, perto – entrou pela rua com cesta abarrotada. Pessoas fazendo sinais de festa! uauu! senti medo. Boa paz desta imaginação cautelosa, fora da vida… Ah! como as pessoas gostam de se agitar no movimeno de ir e vir, então / e por isso, seguem estacionadas… incongruências. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

desafiador

A dor atrás/escpndida pelas cortinas / miúdas incertezas. O que somos (poss´vel entendimento). Também a coragem de querer ser um pouco mais, e a beleza explode domina e grita. Liberta.

Descrever a cidade / os balões e alegria latente: ato de coragem. A mordaça do medo deve ser desafiada. São Paulo / Rio de Janeiro / Pernambuco e o Rio Grande do Sul, retalhos vibrantes. Uma notícia de jornal, um livro esquecido, as fotos do passado, acordadas, estou viva.

Manter os olhos abertos não é tão natural como parece! E o demônio espreita sempre. Estar a salvo é um magia de dentro / esforço interno, mas vais / vamos conseguir porque a luz de maio te espera. Confia! Elizabeth M.B. Mattos – abril na despedida – 2013

fio de dor

no amor / o amor / com amor o fio de dor repuxa, estica. segue, abre os olhos, respira, meu amado. o trabalho faz seguir, não adianta cortar, isolar… ama igual e segue. danado fio de amor, danado fio de dor! Elizabeth M.B. Mattos – abril – 2023