ANA GILBERT

A respiração do TEMPO

o livro volta para a mesa das leituras, abro, releio, leio o que não li? A beleza volta, derruba… faz nascer o que estava ali, e continua a estar, desdobrado, como repeti a mesma coisa: Ana, o livro é de uma beleza completa! OBRIGADA outra vez… O primeiro impacto, outro, e depois de um ano, já não sei mais outro golpe de estupefação! Que estejas escrevendo, escrevendo que as edições se sucedam, que Portugal festeje, que se espalhe o teu sentir… OBRIGADA

És a fotografa, és a escritora, és excepcional! A psicóloga…, não vou enumerar. Vou te admirar outra vez, do começo, do meio, esperar o que perdi Ana.

“É o fim da tarde, o sol desce no horizonte e traz aquele silêncio de um tempo limítrofe. A água do mar me chama, num apelo hipnótico. Entro devagarinho e sinto o silêncio; sobe cálidos pelos pés, pernas, contornos, sexo, cintura. Mergulho e a águaenvolve-me como um afago.” (p.107) O teu rastro em mim – A respiração do Tempo – ana Gilbert

aberto o desejo

desavergonhada estupidez,

estoura / transborda e me acorda.

por que gritas quando estou ao teu lado,

por que sussuras se estás tão longe?

incongruência do amor

no detalhe do teu olhar,

na tua vontade,

dentro do teu esquecimento, da tua dor e do teu sorriso,

lá estou eu. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 –

será que o calor foi com a chuva, ou a chuva disfarça…

poeira na chuva

se eu dançar acerto, ah!

se eu seguir o teu gesto, teu abraço, tua voz,

eu danço.

se me amas, eu te amo,

se te perseguir, eu te encontro

coisas de coração desnudado: confissões e gritaria.

ah! meu amado perdido, eu te quero tanto!

agora, hoje: sem pejo, nem tempo, neste despedaço envelhecer eu te amo. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023

na poeira da chuva escrevo, na trovoada da tarde, neste desanimo cansado, como seria um desânimo festivo? teu beijo manso

o meu, sem posse

a danada da posse complica a rota…

quero seguir, encontrar o suspiro

e o sorriso,

não posso. Por que não consigo?

a posse.

dividir tem a linha, aquele partido que subtrai.

desenho um círculo com a xícara,

depois escolho o copo,

vou buscar o prato:

todos os círculos se encontram na tua música,

escuto tua voz nas teclas do piano,

estou em transe outra vez,

e te amo. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

eu posso sufocar, mas apenas fecho os olhos e adormeço

arzinho de verão

O verão mandou um vento alegrinho sacudir as árvores, e, deu uma sombreada no ensolarado… Espio. Animo e desanimo, não sei bem o que faço! ah Ângela, com nosso passeio de ontem, tentei encaixar alegrias, mas ainda sobrevoa um objeto não identificado! Sim, se me chamarem, não vou… Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

desvio

Tem / estou num desvio virando rota. Uma lágima sendo rio, uma palavra morrendo, desfigurada… O desânimo salvo: sim, teu sorriso atravessou teu mar e chegou na minha lagoa. Passadas apressadas da manhã, afinal, descansaram… Uma noite atravessada insone, consome um dia, dois, três. Enche de bafos e tristezas a casa. Reagir pode ser mesmo decisão! ah! este cansaço! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

sem medo de dizer

céus! Queria comentar vários textos, inclusive, os maus tratos com George Sand – sem piedade, a minha vergonha não permite -, e eu penso, estes limites, pruridos, este medo de dizer, a exposição encolhe as pessoas! Fácil dizer, sejam vocês, completos, mas, a gente se enconde. Então faço outra citação de Charles Baudelaire no seu livro Meu coração desnudado – Editora Autêntica – Belo Horizonte – 2009 – Coleção MIMO

[42] O gosto do prazer nos prende ao presente. A preocupação pela nossa segurança nos deixa pendurados ao futuro. Aquele que se apega ao prazer, isto é, ao presente, causa-me a impressão de um homem que rola por uma ladeira e que, tentando agarrar-se aos arbustos, acaba por arrancá-los e por carregá-los na queda. Ser por si mesmo, antes de tudo, um grande homem, um Santo.(p.59)

[44] Política.

Em suma, perante a história e perante o povo francês, a grande glória de Napoeão III terá sido a de ter demonstrado que aquele que chega primeiro, desde que se apodere do telégrafo e da Imprensa Naccional, pode governar uma grande nação.

Imbecis são os que acreditam que coisas como essas podem se dar sem permissão do povo e os que acreditam que a glóriasó depende da virtude. Os ditadores são os serviçais do povo, nada mais que isso; um papel, aliás, vergonhoso. E a glória é o resultado de um espírito à estupidez nacional.

[45] O que é o amor?

A necessidade de sair de si.

O homem é um animal adorador.

Adorar é sacrificar-se e prostituir-se.

Todo amor é, pois, prostituição. (p.60)

E ele diz sem brincadeira, com todas as letras… Eu vou dando modestas amostras, aconselho comprar o livro.

(147 páginas assustadoras)

[11]Não tenho convicção, tal como as entendem as pessoas do meu século, porque não tenho ambição. Não há em mim base para uma convicão. Há nas pessoas de bem, uma certa frouxidão ou, melhor, uma certa moleza. Só os malfeitores estão convictos. De quê? De que é preciso que se deem bem. Por isso eles se dão bem.

E a gente se assusta porque concorda com quase tudo / sente quase tudo assim mesmo, dá vontade arregaçar as mangas e sovar a massa, fazer o pão, destribuir… Ou recomeçar, mas, a droga é que envelhecemos, e envelhecer é largar as armas. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

bebê

quero ser uma menininha, ou um bebê aconchegado no colo de alguém, acarinhado, embalado, regredir no tamanho e sentir esta coisa de um abraço – confiança

quero casa ordenada, estantes limpas

vestidos perfumados e certezas em ordem alfabética / limpas, perfumadas

quero meu impossível

mesmo que ainda não seja o onde se esconde o possível!

Acordo e juro que vou dar conta das flores, da poeira do encerado do assoalho, dos lençóis, da mesa nova sem cupim – não quero os cupins, quero o mar e não olhar pro mar.quero flores.

quero cartas, mensagens, afagos, mas estou desorganizada e preguiçosa, durmo na cadeira sem sonhar, dói aqui, dói alí, dói amor de tua ausência, dói, dói…Elizabeth M.B. Mattos abril de 2023 Torre – São Paulo. E a Ônix, difícil deixar a pretinha pra trás… Meu tudo.

loucura desalinho coragem

a loucura que empurramos não é nossa, mas o emaranhado de erros cometidos, um atrás do outro, salvos? neste descaminho bafeja o amor, um amor de carinho, outro desajeitado, outo esondido, inconsciente. então eu caminho: ora no escuro, ora pelas sombras e às vezes eu sento na varando e seguro o sol com o rosto, braços abertas, pernas dobradas, dorso entregue e digo que sou feliz, só por um segundo, depois desconcerta o certo e eu caio no vazio profundo, ines´licável, trancando: não vou contar. As cortinas do teatro caem e o espetáculo termina, durmo. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2023 – Torres