contradição e desordem

Desordem, contradição e confusão. O mundo se sacode estranho…. Ótimo ontem, violento hoje, armado e perigoso. Vingativo. Estamos com medo da sombra. Fechar janelas, trancar portas, desligar… Retirar da tomada a energia. E o sono invertido assusta, estamos resvalando. Que estranho…

Não é aqui, nem adiante. Um susto! E não se pode ficar imóvel… Estou cansada de caminhar! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2023 – Torres

amontoado

Amontoado de fotos e desculpas: um nada com poder . O momento resolve, na fragilidade, na força, resolve e altera. O sono sossega. Uma voz grita. Não, uma voz susurra e muda / conserta tudo, ou melhor, qualquer coisa… Pedrinha colecionadas, flores secas. Ressucitamos o gostocom as mãos dadas.

O verão terminou. Quero a voz quente e suarenta do excesso. O vento do outono esfria a temperatura. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torrres

ffugir ou affundar

Existe uma quietude a ser encontrada, uma escapada desta angustia ativa que persegue, abafa: não é o filme, nem o dia morno, nem um livro, muito menos a conversa acesa que me deixa tranquila. A quietude precisa atacar para resolver… Ou abraço de amor. O beijo certo, uma sonolência amiga. O silêncio sem partido: por um minuto, o quintal nos pertence, a grama verde e os jasmim derramaram perfume no parapeito da janela e podemos, tu e eu sermos nós. Não vamos desperdiçar vida espicaçando miudezas, o amor tem mesmo uns descaminhos idiotas! Tão apequenados! Vamos pular estas páginas e sermos nós dois pacíficos! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres – se importa limpar, lavar, acarinhar os cães, molhar as plantas, lavar as pedras, compro flores para alegrar e abro um suco de abricó, descasco tuas frutas preferidas, troco os lençõis, e o piano dedilho sonato, valsa, e a música não vai parar. Não me perdunda nda, brala. Sou tua.

afinidade

afinidade eletiva? natural. E afinidades amorosas intensas! Estas me espurram e decidem… a vontade, arrastam o sentidp. Eu não resisto. afundo, mergulho, testo e me fico menina te amando, enroscada nas tuas queixas, exigências: teus beijos… gosto de descobrir as tuas afinidades e vou pegando, apalpando cada uma… Que prazer! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2023 – Torres

O cenário define? O interior: a cadeira de cor vinho, e o tapete, tua preferência, teu acaso nas escadas e no teu quarto.

desejo

danado / perseguido e importante desejo,

se eu oscilo entre este e aquele

estou, assim mesmo, a clarear /definir o desejo

o meu desejo

o desejo define quem eu sou, como eu sou,

quando o sonho chega e me acorda,

eu te penso

penso aquele amado amor

tenho esta mania esquisita / já perdida ou achada de amar

amar o que não posso ter,

uma sina, um feitiço. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

mimada

tão mimada pela boa saúde que a irritação chega com uma trava na garganta, um soluço, um peso nas pernas, o desejo de encontrar na magreza a vitalidade, vitalidade! suponho que ela se esconde brejeira para me espantar

as horas de sono e as horas de insonia são como uma manta de lã tricotada por mãos insperientes: uns pontos frouxos abertos ladeiam aqueles outros nervosos e apertados, as franjas são irregulares e o colorido das lãs desorganizado, desenha um trabalho curioso, não uma coberta.

que importa? é a minha manta preferida, enrolo os pés que ficam gelados no meio do calorão! quanta incoerência num dia sem pessoas, sem fala, sem sentido. Talvez eu devesse mesmo arrumar um trabalho, um fazer que fizesse método na desordem deste tempo escabelado da velhice. mas eu me contraponho, nego com vigor a tal precaridade da idade: sigo as vontades festivas da velhice da Ônix, assim a minha peludinha decide o horário de passear, de dormir e de acordar. O acordar me parece ser o mais trágico, justo quando aquela boa preguiça me gruda na cama, ela insiste, exagera na urgencia de me fazer sair da cama. Não basta abrir as janelas, alimentá- la, levá- la para caminhar ou sei lá o que mais, não permite que eu volte para cama, voltar para cama, de jeito nenhum… Então, sonolenta faço o meu café, tomo os remédios e me sento para ler o jornal, ligo a telrvisão na Joven Pan e vou olhando para a cama e para os travesseiros a pensar numa estratégia! uauuu…como é muito cedo e fresco, e silencioso, molho as plantas… e vou jogar paciência. Ela, volta a dormir. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

aspirações e ambições

“Quanto mais eu própria envelheço, mais constato que a infância e a velhice não somente se relacionam, mas são, ainda, as duas fases mais profundas que nos é dado viver. A essência de um ser nelas se revela, antes ou depois dos esforços, aspirações e ambições da vida. O rosto liso de Michel menino e o rosto burilado do velho Michel se assemelham, o que nem sempre era o caso dos rostos intermediários da juventude e da idade madura. Os olhos do menino e os do ancião nos olham com a tranquila candura de quem ainda não entrou no baile de máscaras, ou dele já saiu. E todo o intervalo parece um tumulto vão, uma agitação vazia, um caos inútil pelo qual tivemos de passar sem saber por quê.”(p.189) Marguerite Yuorcenar Arquivos do Norte

9 de fevereiro de 1968 – Ireja São José- Porto Alegre

agora, a virada

vai, vem, volta, segue,

pare / interrompa o sentimento de dívida

o passado se sustenta importante / majestoso, eu sei.

agora! e este hoje? o que eu faço?

se não estás comigo o dia se esvazia.

jeito esquisito

picado viver: coragem, tenho que seguir.

“Todo nariz humano cheira imediatamente o doce aroma da independência, hábito de comando, hábito de escolher sempre o melhor para si, o leve desprezo pelo mundo e constante e consciente responsabilidade pelo poder, que nascem de uma renda certa e volumosa. Percebe-se pela aparência de uma pessoa dessas que ela é nuyrida e diariamente renovada por forças selecionadas do mundo inteiro. O dinheiro circula em sua superfície como seiva numa flor; não há empréstimo de qualidades, conquista de hábitos, nada que seja indireto ou de sehunda mão: mas destrúa-se a conta bancária e o crédito, e o homem rico não só não terá mais dinheiro, mas no dia em que se der conta disso, será uma flor murcha. Com a mesma evidência com que antes se percebia a qualidade de sua riqueza percebe-se, só agora, a indescritícil qualidade do Nada nele, que cheira a uma nuvem chamuscada de sinsegurança, inconfiabilidade, incompetência e pobreza. Portanto, a riqueza é uma qualidade pessoal, simples, que se destrói quando decomposta. Mas o efeito e as funções dessa rara qualidade são extraordinariamente enredados e exigem força psíquica para serem dominados. Só gente que não tem dinheiro imagina a riqueza como um sonho; pessoas que o têm, em todas as oportunidadees em que encontram pessoas pobres, afirmam que ele ele é um grande incômodo. […]

Outra dificuldade não pequena para as pessoas ricas é que todas as pessoas querem dinheiro delas. […] E por que, afinal, somos admirados e amados? Não será um mistério difícil de entender, redondo e delicado como um ovo? Seremos mais sinceramente amados por causa de um bigode do que por um automóvel? O amor que em alguém despertamos por ser um filho do sul, moreno de sol, será mais pessoal do que aquele se desperta por ser filho de um dos maiores empresários?” (p.299-301) Robert Musil O Homem sem Qualidades

Cada parágrafo, cada reflexão, cada sentir se sacode na leitura. O que escuto / leio: o poder, o gosto do poder arde e atrai. Que seja! Como fazer rodar este março fervente? Abraços preguiçosos se concentram em projetos. Vamos conhecer a China e sentir o valor. Como se espantar com a Suiça?! Ah! O poder! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres ainda quente. Seria bom dançar, passear e se refestelar em risadas: não consigo achar engraçado. Vou seguir / arrumar este hoje sem projeções. Penso / reafirmo o passado / o vivido. Foi dádiva agarrada na danada da juventude. Envelhecer tem um preço amargo e rasteiro / nossas esquisitices crescem… Bom ler um bom livro: aumenta / agiganta percepções, ou faz pensar um pouco mais.

desorganizado e precário

nunca suficientemente longe,

definitivo, não é decisão

o palco segue iluminado

alguns impactos precários

o esforço é pífio diante da montanha

preciso de todos

as soluções tropeçam inoperantes

assistir o fim, sem poder interferir, o lamento

o lamento se faz lagoa despovoada

as lembranças importam, mesmo as preguiçosas

estamos todos cansados. E.M.B. Mattos – março 2023