Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer,
enquanto O nosso amor Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada
Miguel Torga
Autor: amorasazuis
do outro lado, estás
E me perguntas, debruçado da tua vida guerreira, ativado pelo amor e
pela fé:”Como tu estás toureando os teus moinhos? Estás bem?”
Respondo, meu amigo: sinto que a vida te surpreende, e eu me alegro.
Inexplicavelmente debruçada, eu também, na tua vida… Devo estar ótima.
Tua carta devolveu…, não sei explicar ainda, vou com cautela, medrosa.
Devolveu um elo da corrente. E veio com ela, incríveis margaridas
frescas! Obrigada. Tua carta devolveu… Sempre me senti agraciada por
isso ou por aquilo, sempre foi preciso força forte para retomar o
acordar, e eu consegui empurrar um dia depois do outro, exatamente
neste ritmo. E sigo neste ritmo. Arrumo a casa, limpo, troco os
lençóis, seguidas vezes, caminho com a pretinha três vezes ao dia, e
luto pelos bons odores. Escuto piano, limpo os livros, luto com a
poeira. E o que te contar? Em desordem, em desordem as gavetas, o
armário, as estantes. Em desordem a vida e eu por dentro. Quase oitenta anos e sigo
sem mudar a criança, sem me empenhar, sigo estacionada, iludida. Como sugeres,
escuto um pouco mais da história do outro, um pouquinho. Não o
suficiente. Um egoismo latente de sobrevivência, eu acho. Penso e me
fortaleço quando leio o que escreves e quando tu me escreves: atravessas
o campo com a coragem que te é particular, o brilho natural E tua força! Mágico e perfeito. Dizes: “há lições de
reaprender e a escutar (não ouvir) por dentro, emocionar, perceber
como as pessoas são excepcionais e nunca termos dito a elas por não
termos nos dado conta.” E o que precisamos, de verdade? Deste olhar,
desta escuta, deste atravessar a prepotência de tudo saber, de
tudo ordenar…,apreender. És uma daquelas pessoas que eu gostaria de
ter tido mais perto. O JCKC me enternece sempre. Grande e poderoso,
generoso e atento, amoroso. Por ele meus melhores sentimentos.
Acompanho de perto / de muito perto, e, abraço, beijo, sempre que
possível. Teremos, ele e eu, outra vida para chamar de nossa / complementar, o primeiro pedaço foi intenso.Quem
sabe? Tua amiga R, consegue, na carta, descrever o sofrimento, ou
mais ainda a estupefação, com coragem, fé: outro mundo, sem espaço
para covardia, outra dimensão. E estas ‘transformações’ lhe trazem o
novo e a esperança, incrível! Não importam as vaidades, o estreitamento
e a presença da dor, ela acredita. Caminha noutra dimensão, domina o
sofrimento, esgrima com a possibilidade… Ler sua carta foi me ajudar a
redimensionar o raso do meu dia / ouvir, escutar e comparar. Tudo que
eu possa reclamar será ridículo e risível. Parabéns a ela! Um ser
humano em dimensões particulares. Contigo, meu amigo, aprendo a me
querer mais, estranho poder, eu abro os olhos: no começo do meu
processo lamento, lamento ter me deixado ficar em desânimo, lamento
não ter tido coragem para amar o L., por exemplo, mas eu me consolo
por sermos amigos. Quero mais vida, mais tempo, mais desdobramentos.
Mais fé. Já te contei que deveria ter entrado para o convento, mas
vês, rezo sempre, mas não estou mais envolvida com o ritual / poderei
ajudar e salvar e ser generosa? Teria sido uma boa freira? Passaram os
anos e não sei quem sou. Parece idiota isso. As pontes importam, as
referências, e, volto a te ver/enxergar com brilho, inteligencia e
força, o verdadeiro atleta guerrilheiro. Obrigada por teres me escrito. Eu te devia
uma carta / um cuidado, eu acho. Tenho tido muita dificuldade para
escrever. O importante ficou irrisório, e os meus assuntos
preferidos importam tão pouco! Estou aqui a conversar/pensar comigo
mesma. Os filhos preocupam e salvam, e me cercam como
escudeiros. Os netos, aventura. Planos de morar em Recife! Acertar detalhes,e o
medo. Sempre tenho medo.Talvez seja hora de tratar o
medo e viver a vida. (risos) Aos oitenta? Um ano e dois anos de vida vida deve
fazer a diferença. Esta dimensão de inteiro importa. Explode
completitude. Será? Enfim, meu querido, que estejas bem! Acolhido,
cercado, entre os teus. Pronto!Eu desejo. Claro,
não conseguiremos beber um café na rodoviária, e já não posso fazer
longas caminhadas. Preciso encontrar o caminho de ser eu e entender a
mim mesma antes de explodir: um vascular, um ginecologista, um
dentista, um cabeleireiro, um vestido novo, um sapato bonito, um
dermatologista. Uauuuu! Um caminhão de dinheiro! Irei a Porto Alegre
na outra semana. Tenho dificuldades de deixar a Ônix / somos
amigas, e atentas, nos /com seus já catorze anos caninos, não imaginas
como cuida da véia! Um beijo, dois beijos e melhor sorriso porque eu
te sinto. Beth Mattos (chove, chove, chove)
Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres


sol / fronhas: vida a revirar

Colorido no branco descansado, ventoso outono! Descanso descansado na pausa: expectativa. Neste momento ensolarado, as chuvas estão quietas. Ah! Necessárias como o sol! Dia enfarruscado na tosse, garganta complicada, humor espicaçado: coisas da idade ventosa: de eu com eu! Travesseiros na janela, respiram… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres


Eu me apresso para escrever, não esquecer, não largar, segurar a certeza de que venceremos! Beth Mattos
explode a beleza
bobagens presentes
Pedi a uma jovem senhora que me enviasse um livro, acabava de lançar. Ingenuidade minha, nada profissional, o que fiz, uma talvez, provável, não, improvável amiga. Respondeu onde eu poderia encontrar o volume! Na Panvel e nas livrarias (claro!)! Já com um laço de fita natalino! Claro! Nunca li nem vi o livro, nem sei como de fato ela escreveu/ ou escreve. Passou. Deve ser poderosa, já três volumes.
Marco fez toda a diferença na minha vida. Do desastre, das dores que eram imaturas e jovens! Ele me salvou do espicaçado daquele casamento: desastroso, mas a vida é mesmo cheia de sopresa, erro e acerto. O futuro, os filhos! Elas, as crianças, me ajudaram a sobreviver. Eu escolhi os filhos! E foi isto. Nunca consegui deixou de ser eles, do meu jeito. Sem pieguice. Agarrei a vida, e foi tão bom viver! Então, eu entendo o começo. Claro que G foi o mais importante, tivemos os meninos. Depois seguimos, cada um na sua calçada. E não conheci Roma, nem Veneza, nem Modena: não aprendi a falar italiano, nem espanhol. Cismada com o francês, e sem inglês. Teimosa em todas as escolhas. Nada com Porto Alegre, necessariamente carioca porque vivi ali o mais importa: meus filhos nasceram lá e estudei e trabalhei. A primeira etapa. Depois veio o Sul, o segundo casamento, consciente e a minha filhota gaúcha que virou pernambucana. Uma roda girando. E querendo ser eu, eu, eu como tinha sonhado ser, a escrever.
A superfície permanece. Palavra incrível! A mania de profundidade: voltar para a superfície é objetivo. A casca conta a história da fruta, toda a maturação, e precisamos contar? Pois é. Fica-se a medir isso e aquilo, o trajeto, o feito é o agora. O espelho da casca, a ciência do antes, da preparação. É agora Ficamos com o invólucro. Certo quem se deu conta rápido: vestiu comeu amor e se fez depressa para estar no palco, agarrou as possibilidades todas e não fez mimi… Agarrou, agarrou. Não dá pra choramingar muito, do definitivo, o agora importa. Contar ou descrever os parceiros significa muito, as tais escolhas necessárias. Os filhos necessários. Os netos necessários, os preferidos escolhidos. Gosto de jasmim, gosto de margaridas, das hortênsias, e dos cravos e das frutas, dos morangos que a Joana comprou, das risadas da Valentina. Do tempo. Desenho as ausências do Pedro. E sobre esta pedra está o segredo fechado. Quero me curar logo e fazer mil coisas. Vontade de me mudar pro apartamento de Porto Alegre e começar a ser gaúcha. Que a filha pernambucana aprove. Minha mãe tinha uma história de pernambuco naquela pele transparente de tão branca e na bravura. Sem medo a minha mãe, corajosa até o final, foi um acidente, não foi morte. Ela conversa e explica…
4. Horrível dor! Vontade de arrancar a garganta! Teimosa, escrevo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres



obra
não passa
dore do corpo altera sentimento / esvazia cabeça, flutua a vida
sos
alhuém precisa gritar!
sei bem o que dizes, apenas uma ventania resfriada, uma garganta travada.
vai passar! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres
droga! não passa…
coisas estranhas me perseguem…
estranezas
não ver a Ônix na sombra / perder a caixa de óculos / depois perder os óculos,
ver sobras caminharem, anotar pensamentos , mas esquecer as palavras…
deito às 19 horas, acordo às 24 horas
abro três livros, não termino ORLANDO, nem Grande Sertão :Veredas.
penso no professor Roberto, penso no Rio de Janeiro.
tropeço nas eleições.
tardes cinzentas com chuviscos quentes, mas eu congelo.
não gosto de poemas, mas neles eu me demoro.
quero falar contigo,
desligo o celular. Elizabeth M.B. Mattos outubro de 2022 – Torres, amanhã Porto Alegre e logo estarei em São Paulo, para me demorar em Recife
Se até agora ainda não possuo todo o teu amor,
If yet I have not all try love,
Dear, I shall never have it all;
John Donne (Lover’s Infiniteness)
Querido, nunca o terei de todo.
sinais do amor=enamoramento
Pois assim é que um novo amor enterra um velho amor. O enamoramento, um estado perfeito, completo, intenso da tal felicidade… A experiência, claro, deve ser simultânea, caso contrário ficamos a fantasiar o que não foi, lamentar o que poderia ter sido, e querer, até o fim, até o último momento, aquele enamoramento, aquele amor incompleto… Claro, sobrevivemos, claro, colocamos uma cor em cima de outra, tantas cores que voltamos ao nenhuma, ao preto, ao tudo junto…, o que faz / faria a tal diferença? A certeza destes sentimentos misturados numa sonata, numa melodia, no belo / no perfeito é / pode ser / este conhecimento brejeiro de conhecer as pedras sobrepostas para chegar na tal catedral. Tantas e tantas leituras / tantos e tantos entendimentos resultam neste movimento apaixonado. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres que venha o novo, não pode ser o velho, mas apenas o novo



