testando um novo lugar na casa… lugar impossível do possível: minha casa… os filhos chegam, dançam e trazem o colorido, fico emotiva…
Autor: amorasazuis
uma vida superficial
“[…] os entes humanos, no mundo inteiro, continuam mais ou menos o que eram há cinco ou sete mil anos atrás.” (p.73)
Quanto mais intelectuais somos, tantos mais livros lemos, e adquirimos conhecimento e nos tornamos altamente perspicazes, dialéticos. Erguemos uma muralha, atrás da qual nos abrigamos. Somos emotivos, tornamo-nos muito sentimentais, queremos prestar serviços, entregar-nos de corpo e alma à reforma social, influir em outros, tentar guiar, ajudar e transformar a sociedade. Tudo isso é superficial em extremo. Como se explica que os entes humanos, após tantas experiências de guerras e constantes batalhas, tanto no interior como no exterior, com todas as aflições e sofrimentos que acarretam, física e psicologicamente, como se explica que os entes humanos continuem a viver superficialmente?” (p.74) Krishinamurti – o mistério da compreensão
inércia
Este estado me parece o melhor de todos e com certeza de maior angústia – seria, inútil? Qualquer coisa esconde o corpo, uma camisa / um saco, já um monstro, ora com cabeça, ora sem, mas nunca faz acontecer… Os monstros de pelúcia empilhados num pega-pega de bichinhos. Deste nada, um dia de sol, de ar, de tempo se estreita e se apaga no sono, cheio de atropelos, a ver / a querer sonhos. Por que existe a doçura que me cuida faço pequenas coisas dirigidas: exigências essenciais de fazer a Ônix reagir aos seus quinze anos esticados. Há que se ter projetos, métodos, coerências. Por que perdi estes detalhes todos e o espírito vaga, indefinido… Sento ao lado da minha amiga Maria Sofia para absorver a paz azul que ela traz no sorriso. Ouço as histórias com o espanto de menina. E como menina, impaciente, pouco gentil, perco as horas. As brincadeiras de correr, pegar, ir aqui e ali me parecem todos essenciais… Eu a deixo no banco da praça a me esperar. Lembro que preciso priorizar, harmonizar e empilhar as vontades. E numero, vou riscando com um lápis o capricho que extrapolo, disfarço até o relógio soar hora de entrar…
Todos as minhas vontades se perdem neste inquieto deslize / fuga / desvio de ouvir, ouvir, ouvir, não concluir. Por que preciso, de fato, realmente, entender às voltas e os trancos quando nada mais será como antes? Apenas o atropelo aflito de saber que embora a razão exija, existe a loucura se adianta… Se ontem eu confiei e entreguei um ramo de jasmins e duas rosas, hoje levaria /levei espinhos sem flores. É aquela decepção que se acomoda no coração. E uma impaciência caprichosa. Por que ser eu quando de fato, na verdade, existo, como/ou sendo um arremedo de vontade sem vontade? Arrumar a mesa. As gavetas, os armários, empilhar os livros, esfregar, polir e lustrar evidencias. O esforço de representar / projetar / querer sem nenhuma, nenhuma vontade… O plano, o esboço, o projeto? Preciso encontrar para conseguir… A camisa de força para segurar a loucura. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres aniversário do Guilherme / e a corda dos aniversários está carregada de enfeites festivos
retocar
retocar é uma palavra boa: tocar pode ser perfeita a que se completa: faz voar / vários sentidos…escuto o piano, tocar!, ou toco nos teus braços e com meus olhos, eu toco o teu desejo e te beijo. tocar outra vez, retocar é voltar, refazer, outra vez e nesta vez aperfeiçoar… este afeiçoado que sinto pela vida me faz desejar sentir tudo outra vez, viver mais um pouco, apertar enquanto toca… que vontade tenho de ser em algum momento obcecada pelo desejo de te tocar / e tanto este toque que eu te escuto. escuto o teu gemido depois… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres
doce voo
Não se trata de um sonho, mas de um arremesso do ser.
“Diante do sol nascente, a primeira sensação do nietzchiano é a sensação íntima de querer, a sensação de decidir e, movendo-se, de se promover numa vida nova, longe dos remorsos da deliberação, visto que toda deliberação é uma luta contra obscuros pesares, contra remorsos mais ou menos recalcados.” (p.157) Gaston Bachelard O ar e os sonhos – Nietzche e o psiquismo ascensional
Observações ou pensamentos que viajam dentro de mim num ir e vir. Escorregam na memória. Atenção! Saem das/nas conversas longas e íntimas com os filhos. Elas e inclinam, me estremecem. Registro temerosa de cavoucar, ou não dizer ou revelar só no dolorido remorso. Obscuro pesar. Recolho as palavras. Quero acertar sem machucar. Dizer sem espetar. Nunca ferir ou fazer doer ou machucar. Apenas liberar o incômodo da memória. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres quente, mas não tanto.
portão azul
Meu querido, da inquietude salta minha saudade. E as nossas conversas travadas engasgam o tempo. Uma voz desta tarde indefinida me fez te escrever. Escrever depressa. Conta com o teu tempo entre o café e os pincéis, a pausa. Estou envolvida nas histórias que não se definem… Quero te contar, talvez enredar tuas observações. A tarde se arrasta. Um bule de café, e bolinhos fritos. O proibido da alegria! Ficaram delícia! A preguiça não me ajuda, e, as xícaras, os pratos, as toalhas, nem os copos se movem… Estranho os desejos não se realizarem, eles se arrastam… Estou entre os livros, fechados, os lápis apontados, cadernos encapados, a colegial não se despede, e percebo meus hábitos juvenis presos nos dela. Esquisito. Crescer é se despedir, fechar portas, fazer movimentos bruscos… Eu calculo cada passo, e penso se vais aprovar. Estou travada. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Portão Azul

mulher e chocolate: divagação

Deve ser um velho texto, de personagem desenhada… Reflexão de escrever / tentar. Eu escrevia escrevia com febre de escrever: o tempo todo, todo tempo… Releio o impresso… reescrevo / transcrevo, não resisto.
Mulheres da idade dela, entre vinte e cinco, trinta, ou trinta e cinco anos não querem filhos um atrás do outro, feito coelhos, mas trabalham, e fazem, sonham com viagens, férias lazer, férias de ano inteiro, ou teatro, cinema, musicais, espetáculos!
A palavra mãe está um pouco enlouquecida ela mesma. Ser mãe é perder referencias internas importantes. Como mulher eu sou eu, como mãe, sei lá, desdobrar. Desdobrar, quer queira, quer não queira… Embalar. Ser mãe é misturar sentimentos, cair em abismos, acordar no susto, perder identidade. Ser mãe é fazer o filho sofrer enquanto de prazer ele te cobre. Misturar agrados com punições. Palavras com gestos desastrados. Ou desastrados gestos com palavras pesadas. Digo o estranho, o errado, na hora imprópria. Eu me torno mulher, num repente, fêmea, quando deveria ser apenas braços para acalentar e cabeça razoável para aconselhar. Uso a roupa da moda: os homens olham e gostam. Mãe não deveria estar na mesma calçada, na mesma mesa, na mesma cama, casa. Talvez engarrafada com o gênio Aladim: um grito e ela chegaria solícita e pronta, transparente, silenciosa e possível. Palavras. Sim, palavras: mulher, mãe, discurso, palavras complicada, simplificada. Justo ou justo? Como mãe a gente sempre avança… Eu avanço na linguagem e volto a pensar nas brincadeiras de criança. Mamãe posso ir? Quantos passos? Virávamos as costas e depois corríamos… Como era mesmo a brincadeira? Quem chega primeiro ganha. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2024- Torres
não é Pascoa…
da janela
Alguém empurra as venezianas e abre a janela. Grita, grita um nome bem feio, um nome bem grande e bem feio… Espanto.
Depois ela se aproxima e abre a porta. Pede um café sorri, depois, começa a falar, e conta e conta e conta um monte de coisas feias, vagas, tolas e feias. Coisa de tanto tempo ruim! Remexe naquele poço. Os fantasmas saem… uns vivos, outros mortos, sem força… Por que ela traz aqueles todos fantasmas? Pessoas? Histórias… São todas histórias feias.
Ela sai. Aquele lixo fica todo ali no meio da minha sala… braços, pernas, vozes, risadas e o sentido solto, escorre, escorre dele um fel, um líquido bem escuro, escorre pelo sofá… Amanhã jogo tudo fora. Amanhã. Hoje estou tão cansada destas coisas todas, destas pessoas todos… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2024 – Torres
trança de sobrinhas / meninas
Tranças bonitas e coloridas / práticas e significativas… No retrato / na foto, as cores dos cabelos sobressaem ao brilho… Por entre os fios palavras amorosas, outras levianas e perigosas. O trançado firma longos cabelos castanhos, dourados e escuros… Para a velha tia, no final da manhã, depois de ir e vir, voltar e puxar a exaustão se completa. Para as sobrinhas viajantes e cheias de pacotes, as voltas encontros se misturam em vozes atentas, ouvidos interessados como se aquilo tudo se nomeasse histórias de família / de amor e segredos, e todas as leviandades que o contar daqui e dali produz excita. As vozes, as histórias escorrem misturadas ao lixo das calçadas, as folhas caídas, uma flor aqui, uma verdade ali e um amontoado de mentiras picantes estremecem as lembranças… Um suspiro, uma risada, então a vida fica toda pendurada naquela trança que fizeram… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2024 – Torres
